O Presidente da República convocou anteontem os órgãos de comunicação social para lhes falar de dois casos que têm agitado esses mesmos órgãos, bem como os partidos políticos e a opinião pública em geral. É indiscutível o impacte que irão ter as acusações directas feitas ao PS, a propósito das interpelações de membros deste partido sobre uma alegada colaboração de assessores do Presidente na elaboração do programa eleitoral do PSD. Trata-se de uma situação muito invulgar na história da democracia em Portugal, que
vai de certo aumentar a crispação política e social que neste domina a vida colectiva no país.
vai de certo aumentar a crispação política e social que neste domina a vida colectiva no país. Sobre o caso das escutas o Presidente chamou a atenção para o facto de que apenas ele e os seus chefes das casas civil e militar podem falar em nome da Presidência. Como nenhum deles se pronunciou sobre o assunto, o problema é como se não existisse. No entanto, não fez um desmentido formal e revelou que várias entidades de segurança tinham procedido à análise do sistema informático da Presidência da República e chegado à perturbadora e perigosa conclusão de que o mesmo apresenta vulnerabilidades. Parece razoável deduzir do que foi dito que poderá mesmo ter havido escutas. O Presidente, porém, não o afirma, nem creio que possa alguma vez vir a afirmá-lo, salvo quando daqui a uns anos escrever as suas memórias políticas, dada a extrema gravidade que uma tal declaração implicaria. Poderia constituir um verdadeiro terramoto político, de consequências completamente imprevisíveis.
Estes dois casos já tinham adensado consideravelmente o clima de tensão política em que se vivia há semanas (há meses, se acrescentarmos o lamentável caso da aprovação do Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma dos Açores) e dado origem a muitas perplexidades. Como sabemos que o Governo se tem servido, para os mais variados fins, de uma poderosa, sofisticada, bem organizada e eficiente máquina de propaganda e de contra-informação, com influência em vários meios mediáticos, onde não é difícil encontrar comentadores e outros interventores bem alinhados com as orientações governamentais, é inevitável que nos interroguemos sobre o que se passará nos bastidores, a que o cidadão comum não tem acesso.
Muitos comentadores criticaram anteriormente o silêncio do Presidente que, segundo eles, deveria ter falado mesmo em plena campanha (pré-eleitoral e eleitoral), ignorando os efeitos muito negativos que provavelmente teria uma tal intervenção presidencial, conhecendo-se o elevado grau de agressividade e de violência verbal com que decorreu a campanha. Os mesmos comentadores criticam agora a comunicação do Presidente, afirmando que ela não explica tudo (ignorando, de novo candidamente, que não o podia fazer) e que isso o fragiliza ainda mais. Porém, não ouvi em nenhum dos comentários críticos a menor fundamentação sólida para essa alegada fragilização, que tem sido repetida até à exaustão. Por outro lado, tem permanecido um pesado e incompreensível silêncio sobre a gravidade objectiva do procedimento do Diário de Notícias, outro órgão de comunicação alinhado, que publicou correspondência electrónica privada trocada entre jornalistas do Público.