
Cada um de nós sabe por experiência própria que há uma natural dificuldade do ser humano para se avaliar e criticar, para reconhecer, como que projectando-se para fora de si próprio, como se fosse um observador externo. que ajuizou mal, errou ou procedeu de forma inadequada ou incorrecta. A capacidade de autocrítica resulta do diálogo do homem consigo mesmo, num processo psicológico complexo mas muito rico, cheio de possibilidades de aprofundamento interior, que já Santo Agostinho tinha salientado, com a sua conhecida lucidez de raciocínio e a riqueza e versatilidade da sua análise psicológica. Esta dificuldade natural de autocrítica aumenta consideravelmente tanto mais quanto maiores forem as responsabilidades de que se estiver investido em funções de direcção ou comando. De facto, o estatuto socialmente reconhecido a quem arca com tais responsabilidades, que conferem autoridade e prestígio, constitui um forte travão psicológico à autocrítica, pelos danos que o estatuto possa sofrer pelo simples facto de se admitir o erro, mesmo sendo certo que «errar é próprio do homem». Por outro lado, a admissão do erro obriga a uma série de reavaliações pessoais e à adopção de comportamentos diferentes. Estas mudanças fazem um apelo à vontade, que nem sempre está disponível para o fazer.
As pessoas que detêm responsabilidades políticas têm muito mais dificuldades em realizar aquelas exigentes operações de auto-avaliação e de mudança, porque a segurança no exercício de funções políticas se baseia em grande parte em defesas, assumidas e consolidadas, por vezes quase inconscientemente, que fazem apelo a uma certa forma de inércia, mesmo que sofisticada, bem como à manutenção quanto possível do «status quo». Por isso, nos políticos há tendencialmente pouca disponibilidade natural para realizarem efectivas alterações. Daí a permanente actualidade na acção política da famosa frase «é preciso mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma», que alguém designou cinicamente como «imobilismo dinâmico».
Radicam aqui certos tropismos comportamentais dos políticos facilmente observáveis. Mesmo quando o erro é manifesto e evidente, isso não impede que sejam apresentadas facilmente explicações desculpabilizadoras, ainda que possam ser consideradas esfarrapadas, inócuas ou mesmo caricatas e patéticas. Outras vezes procede-se à distorção interpretativa dos factos e das situações, bem como à manipulação ou enviesamento de indicadores estatísticos ou de dados económicos e sociais para camuflar e não reconhecer os erros cometidos. Ou seja, recorre-se a cortinas de fumo, que impedem a discussão séria dos problemas, base fundamental para uma sã e eficaz acção política.