A crise financeira grega, que constitui um espantoso exemplo de má governação, praticada impunemente, de forma reiterada, durante largos anos, sob o olhar complacente dos responsáveis europeus, tem dado azo a curiosas discussões sobre a ajuda financeira a prestar sob a forma de empréstimo em condições mais favoráveis do que as exigidas pelos mercados. O valor previsto é colossal, pois passou dos 45 mil milhões de euros inicialmente previstos para os 120 mil milhões agora admitidos como necessários! Parece loucura e é-o de certo um país actuar com tamanha leviandade e deixar-se chegar a esta situação financeira calamitosa, em que praticamente já tem a corda metida no pescoço.Os mais ferrenhos defensores daquilo que chamam «solidariedade europeia», em regra de tendências mais federalistas, têm criticado a Alemanha por causa das suas dúvidas e reticências em avançar sem delongas com aquele apoio, esquecendo-se de que este país arca com a responsabilidade maior (20% do total). É compreensível que os organizados, laboriosos e produtivos alemães não vejam com bons olhos que os desorganizados, preguiçosos e perdulários gregos, que têm andado autenticamente a «dormir na forma», possam sem mais ir aos seus bolsos sacar o dinheiro que desbarataram e de que agora precisam.
O laxismo europeu no acompanhamento da má governação grega nos últimos anos é de certo modo compreensível, sem deixar de ser condenável, se nos lembrarmos que a motivação para a introdução do euro, prevista no Tratado de Maastricht (1992), foi na altura mais política, relacionada com a reunificação da Alemanha (1990), do que económica. A Alemanha foi, por assim dizer «obrigada» a trocar o seu precioso e valorizado marco pela reunificação. Por isso se introduziu uma moeda única sem haver uma política económica verdadeiramente comum e muito menos uma política fiscal e orçamental igualmente comum.
Por outro lado, a admissão no euro de determinados países com economias mais frágeis, sem apresentarem ainda uma consolidação financeira e orçamental definitivamente estruturada, foi também devida a razões mais políticas do que económico-financeiras. Sabemos que a política tem por vezes, infelizmente, razões que a economia não compreende nem aceita. Por isso, mais cedo ou mais tarde, a verdade nua e crua acaba por vir ao de cima, como agora se viu, quando a crise financeira internacional fez estalar o fino verniz que mascarava a realidade das economias desses países, admitidos na zona euro de forma tão generosamente apressada.


























