Têm agitado a opinião pública e dado brado na comunicação social dois casos relativos ao funcionamento dos serviços públicos de saúde. O primeiro caso decorre da decisão de fechar o serviço de atendimento permanente de Valença, em que a melhor alternativa para os habitantes, em termos de facilidade de deslocação, parece ser a vizinha Espanha. Eventualmente, a Ministra da Saúde pode ter razão em abstracto, ou seja, em termos técnicos e estatísticos. No entanto, pode ter perdido a razão em virtude das circunstâncias locais, que muitas vezes desafiam a lógica fria dos números e dos pressupostos técnicos. De facto, uma coisa são as estatísticas referentes à frequência do atendimento permanente, susceptíveis de justificar o seu encerramento, outra coisa será a realidade humana e social da região, tal como é vivida por todos no terreno.Acresce uma outra razão, a que as pessoas são particularmente sensíveis: perante a evidência de tantos desperdícios nos gastos públicos, porquê a opção de cortar nas despesas de saúde? Por fim, parece manifesto que a decisão governamental foi tomada à distância, de uma forma tecnocrática, sem a consulta das populações e a informação pedagógica que é fundamental em todos os actos de governação, mas em especial naqueles que dizem respeito ao exercício dos direitos sociais dos cidadãos.
O segundo caso polémico diz respeito ao sistema de unidose dos medicamentos, cujas vantagens são conhecidas: ajudam a criar hábitos de parcimónia, evitam desperdícios e reduzem os gastos de saúde. O Primeiro-Ministro tinha prometido a aplicação do sistema, mas este não chegou a ser posto em prática. Parece que o sector farmacêutico se mostrou pouco receptivo à ideia. Entretanto, o Plano de Estabilidade e Crescimento reafirmou a introdução do sistema, o que bem se compreende, uma vez que implica poupança para o Estado, a braços com excesso de despesa pública.
Agora, tanto a Ministra da Saúde como o INFARMED dizem que há «dificuldades» na implementação da medida. Ora a ser verdade, isto significa que a medida foi adoptada sem estudo adequado, em cima do joelho, ou seja, não passou de uma forma de propaganda política, como tantas outras. Por outro lado, ninguém se deu ao cuidado de explicar em que consistem concretamente essas dificuldades. Sem essa informação, são inevitáveis as suspeições de que o Governo terá cedido às pressões da poderosa indústria farmacêutica. Ora, um governo, qualquer governo, deve actuar sempre de modo a ficar acima de qualquer suspeita, o que só se consegue através da verdade na informação.