Numa coisa o Governo tem tido êxito assinalável: conseguir que a generalidade dos portugueses não se tenha ainda apercebido bem da real gravidade e perigosidade da situação económica e financeira em que se encontra o país. Para o efeito, o poder político tem usado uma técnica que se tem revelado eficaz, porque baseada em duas artimanhas de retórica que são por natureza confusionistas: o desmentido e o discurso da desdramatização.Assim, quando são divulgadas notícias menos boas para o país, sejam de instituições internacionais, sejam das agências de rating, sejam ainda de comentadores e especialistas, o Governo, com inegável habilidade, com a astúcia própria de quem esconde a verdade, tem duas reacções típicas: nuns casos, afirma que as coisas não são bem assim, ou seja, desmente-as; noutros casos, reconhece que as coisas são assim, mas que não devem ser tomadas à letra por haver manifesto pessimismo nos dados, ou seja, desdramatiza ou desvaloriza a informação. Ora, ao mostrar ao país, com insistência, no meio de afirmações voluntaristas de optimismo e confiança, um cenário de cores menos carregadas, o Governo sabe que as pessoas tendem instintivamente a aceitar a versão menos negativa. Ninguém gosta de ouvir más notícias.
É por isso que os responsáveis governamentais, ao concentrarem o discurso no combate ao défice orçamental e nas medidas para o crescimento económico evitam cuidadosamente, de forma sistemática, falar nos dois mais graves problemas com que o país se debate. Assim, silencia-se o problema estrutural do desmesurado peso da dívida pública, que não tem cessado de aumentar e se prevê continue a crescer nos próximos anos. Por outro lado, nada se diz sobre o baixo índice de produtividade da economia, que é consequência das crónicas ineficiências tanto do factor trabalho (mão-de-obra), como do factor capital (investimento das empresas), como ainda do factor governação (orientação política, legislação, educação, justiça, etc.).
Assim, não admira que no próprio dia em que a União Europeia aprovou, com alguns reparos, o Plano de Estabilidade e Crescimento, foi divulgada a notícia de que a pressão dos mercados internacionais sobre a dívida pública portuguesa voltou a intensificar-se, o que impedirá o Estado de obter taxas de juros mais favoráveis, ou seja, o dinheiro volta a ficar mais caro. Perante tudo isto, vai o Governo continuar a assobiar para o lado, relativizando uma vez mais a notícia, com a ligeireza habitual e assim ocultando de novo, da percepção dos portugueses, toda a dimensão da verdade? Tudo indica que sim e isso não é uma boa notícia.