quinta-feira, 1 de abril de 2010

A CEIA DE DESPEDIDA DE QUINTA-FEIRA SANTA

Com a celebração da ceia de despedida de Jesus Cristo, ocorre hoje a primeira das três grandes celebrações litúrgicas que caracterizam as festas pascais. É inerente à natureza humana, como factor de integração social e familiar, o convívio à volta de uma mesa, onde é servida uma refeição. Por isso, mantém ainda grande importância e significado a tradição dos encontros familiares que todos os anos se verificam por ocasião da Páscoa. No entanto, se, nesse aspecto, Jesus actuou como todos os homens, como fazem hoje todas as famílias, juntando os seus discípulos mais próximos para cear com eles, transcendeu essa ocorrência puramente humana com dois episódios de grande significado, já que cada um deles é portador de uma mensagem muito forte e profunda. Pela sua transcendência, qualquer deles é fora do comum, estando mesmo no domínio do extraordinário.

O acto de lavar os pés deixou os discípulos de Jesus completamente estupefactos, mesmo escandalizados, porque na altura não viram como um tal gesto, próprio de servos, de gente de baixa condição, era profundamente sublime, pois trazia em si uma mensagem de antipoder, ou seja, uma revolução no exercício do poder. Os homens são naturalmente atraídos pelo poder, que satisfaz ambições e proporciona o atributo de «ser servido». Para Jesus, a grande missão do homem é servir. Por isso, o maior e mais qualificado dirigente ou com mais poder é o que melhor deve servir. Não podemos duvidar de que as crises, de qualquer natureza (políticas, sociais, culturais, familiares e religiosas) que afligem as comunidades e os países, ou seja, os seres humanos, são apenas crises de capacidade de servir dos dirigentes e responsáveis, por vezes demasiado preocupados com o poder, o seu exercício e os faustos que o acompanham.

O segundo acto da ceia, a instituição da eucaristia, foi ainda mais impressionante e inacreditável, porque concretizou de uma forma antes impensável a ideia de que «Deus está entre nós». Trata-de de um modo absolutamente ímpar de Jesus não só permanecer no meio dos homens, mas de o fazer de um modo pessoal, íntimo, directo, numa comunhão interactiva, que deu a São Paulo a ideia genial do «Corpo Místico de Cristo», de que todos os cristãos fazem parte.

Ao longo dos séculos, mas em especial após a eclosão da reforma protestante no século XVI, muitos cristãos envolveram-se em vivas querelas sobre o sentido exacto que se deve dar à presença de Cristo na eucaristia, como se não fosse suficiente acreditar que Jesus está de facto presente. Vergados ao peso do orgulho intelectual de quem quer saber tudo acerca de Deus (como se isso fosse possível), degladiaram-se duramente, por vezes de forma pouco amistosa (diríamos pouco evangélica) em críticas, acusações, recriminações e exclusões.