Hoje é antes de mais um dia de alegria, porque é nele que ficamos a saber que Jesus Cristo, que havia morrido na cruz, afinal está vivo e actuante, voltou a estar entre nós. Está vivo, porque ressuscitou. No entanto, não nos devemos deixar equivocar pela palavra «ressurreição». No ressurgimento de Cristo do mundo dos mortos não se tratou do mesmo fenómeno que ocorreu com a ressurreição de Lázaro, que constituiu um dos grandes milagres de Jesus, segundo os Evangelhos. Neste caso, o que ocorreu foi antes uma reanimação ou revitalização de Lázaro, que voltou simplesmente à sua anterior condição, pelo que na altura própria, encerrado o seu ciclo biológico de vida, morreu definitivamente. Com Jesus Cristo ocorreu antes um fenómeno de transfiguração ou transmutação, que o dotou, por assim dizer, de um «corpo glorioso», como evidenciam as passagens evangélicas que relatam as suas aparições após a ressurreição.Trata-se obviamente de um mistério de Deus, pelo que só a essa luz, enquadrada pela fé, é possível ter a percepção da sua natureza e dos seus efeitos. É possível que, hoje em dia, grande parte das pessoas, incluindo as que se dizem cristãos, duvidem que se esteja perante um mistério de Deus ou de todo em todo não acreditem no acontecimento. Mas se admitem que ainda têm fé, precisam de reflectir no que disse São Paulo: «Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé».
Curiosamente, essa indiferença perante um mistério de Deus é para essas pessoas compatível com a busca, hoje muito em voga, de outros «mistérios», estes inteiramente criados pelo engenho humano. Basta referir, a este respeito: a enorme procura de livros sobre temas esotéricos, incluindo romances com efabulações de índole mística ou político-religiosa; o grande interesse por filmes sobre aventuras baseadas nos mais estranhos e desconcertantes «mistérios»; a busca desenfreada de muitos jovens pelas aventuras de Harry Potter, recheadas de situações de magia, ocultismo e feitiçaria.
As coisas passam-se assim porque muitas pessoas estão actualmente voltadas apenas para si mesmas, como se constituíssem o centro do universo, ou seja, numa perspectiva exclusivamente imanente. Por isso, sentindo de alguma maneira o apelo do mistério, não encontram outros mistérios a não ser o que elas próprias fabricam. Assim, não conseguem ter uma perspectiva transcendente, que ultrapasse os pequenos círculos em que se movem e que os podem levar a um beco sem saída.