Vale bem a pena ler o artigo de Sílvia de Oliveira publicado no jornal i de ontem em que, sob o sugestivo título de Shame on you dá conta do atribulado e suspeito, para não dizer vergonhoso, processo de nomeação do presidente da Cimpor, a grande empresa portuguesa do cimento. Embora seja actualmente uma empresa privada (já foi pública, na sequência das nacionalizações de 1975), o Estado (sempre ele...) detém nela, através do banco público Caixa Geral de Depósitos (sempre ela...) uma participação de quase 10% do capital social. Para melhor se compreenderem os sinuosos meandros deste processo, importa referir que os restantes cinco maiores accionistas, que são empresas privadas, detêm em conjunto quase 80% do capital.Face a estas realidades e às naturais regras do jogo empresarial, seria sem dúvida de esperar, até porque seria desejável, se Portugal fosse um país normal, com um governo normal, com práticas normais de funcionamento da economia, com empresas verdadeiramente independentes do poder político, que o novo presidente fosse escolhido entre alguém que apresentasse indiscutíveis credenciais de gestor de empresas, como Palha da Silva, até há pouco presidente executivo da Jerónimo Martins e que já desempenhou o cargo de administrador da própria Cimpor.
Mas não foi isso que aconteceu. Segundo consta, não houve para o efeito suficiente consenso entre os accionistas. Parece evidente que as dúvidas não incidiram sobre a idoneidade de Palha da Silva para exercer o cargo. A razão da sua exclusão permanece no segredo dos deuses, mas só os ingénuos e distraídos não perceberam o que em última análise motivou a decisão. Neste país as coisas passam-se de modo diferente do que seria normalmente expectável.
O Governo, com o seu grande «olho controlador», insaciavelmente ávido de interferir, pelas mais diversas formas e com todos os pretextos, na vida das empresas, estava lá, estava atento e vigilante e soube de certo ser convincente. Sabemos bem como um Estado superinterventor se torna facilmente «persuasivo». Quem é que no nosso país não depende, de uma forma ou de outra, do Estado? Por isso, não admira que a escolha dos «accionistas privados» tenha recaído num político, Castro Guerra, que até 2oo9 desempenhou as funções de Secretário de Estado adjunto do Ministro da Economia Manuel Pinho, ou seja durante o I Governo de José Sócrates. Está tudo bem assim, porque não podia ser de outra maneira.