Numa entrevista recentemente concedida a um jornal diário o conhecido sociólogo e investigador social António Barreto disse, com a sua habitual frontalidade, que os deputados «são servos e gostam de o ser». No manifesto exagero e na injusta generalização da expressão usada, pretendeu António Barreto pôr em evidencia a excessiva dependência em que, em regra, se encontram os deputados. De facto, embora sendo eleitos pelo povo eleitor, na sua actividade política encontram-se enquadrados em verdadeiras baias, por vezes muito estreitas, estabelecidas, não raro de forma autoritária, de modo não consensualizado, pelas direcções dos grupos parlamentares e, sobretudo, pelas direcções partidárias e pelo respectivos presidentes ou secretários-gerais. O aspecto mais evidente e, por vezes, mais chocante desta situação centra-se na famosa e controversa disciplina de voto.Este fenómeno resulta do papel, que muitos consideram excessivo, que os partidos políticos exercem no processo democrático. Existe a obsessão da unidade do partido, que se transformou numa espécie de valor absoluto. Embora a essência da democracia seja a liberdade de pensamento e de expressão, criou-se a falsa ideia de que o pluralismo se manifesta apenas em haver vários partidos, mas não já na diversidade de opimiões no interior de cada partido. Por outro lado, maximizou-se a perspectiva, claramente emergente da velha cultura do absolutismo político, que permanece, obscura e difusa, no subsconsciente colectivo, traduzida na ideia da autoridade «forte» e «indiscutível» do chefe, do líder.
A própria comunicação social comunga desta cultura de «unidade unanimista», pois tende a exagerar e a distorcer as manifestações de pluralismo dentro dos partidos, ampliando enfaticamente o eco das declarações dos membros dos partidos que pareçam «dissonantes». Por isso se fala em «clivagens», que facilmente passam a «conflitos» e se transformam em «dissidências», ao passo que o partido passa ser considerado «em crise» e em «confusão interna», só porque no seu interior fervilham as ideias, como é próprio de uma organização de homens livres.
No caso dos deputados, a situação agrava-se, uma vez que os parlamentares não se apresentam ao eleitorado por si próprios, embora formalmente apoiados por partidos, mas são previamente escolhidos e convidados pelas estruturas partidárias locais e centrais. Por outro lado, aos eleitores pede-se simplesmente que escolham uma lista partidária, sem possibilidade de fazerem opções individuais dentro de cada lista. Esta dependência originária dos deputados está na origem de todas as demais dependências com que exercem os seus mandatos. Os que quiserem actuar com independência de espírito arriscam-se a várias formas de represálias, que não são certamente saudáveis para o bom funcionamento da democracia.