O semanário Expresso do passado dia 10 de Abril publicou uma notícia que, embora breve, dificilmente podemos não considerar inquietante e escandalosa, mesmo que nos julguemos, infelizmente, mais ou menos habituados a informações desta natureza e deste calibre, pelo que sabemos ou intuímos sobre o modo como a coisa pública é gerida em Portugal, na base da insensibilidade dos responsáveis pelos gastos efectuados e da ausência de sentido de moderação, rigor, parcimónia e racionalidade na utilização dos dinheiros públicos. Reza assim a noticia:A estação pública de televisão custou aos cofres do Estado, nos últimos oito anos, mais de dois mil milhões de euros, o equivalente ao montante necessário para a construção de três pontes Vasco da Gama. Os dados constam do último relatório e contas, apresentado esta semana, que mostra ainda que as receitas comerciais obtidas pela RTP apenas correspondem a 24% do total dos ganhos da empresa.
A indignação que a notícia provoca é certamente agravada por se tratar de uma empresa que tem a responsabilidade de prestar um serviço público de televisão, cuja definição inequívoca e precisa, aliás, continua por fazer, não só pela evidente dificuldade de definir tal objectivo, mas também porque a ambiguidade prevalecente é útil para os detentores do poder político. Na prática, «serviço público» é aquilo que a empresa vai fazendo no dia a dia, ainda que em muitos aspectos da programação em nada se distinga, em originalidade e qualidade, do que oferecem as televisões privadas suas concorrentes. No entanto, o rótulo formal de serviço público dá muito jeito, exactamente para que o financiamento público, através dos famosos subsídios compensatórios, seja uma torneira que nunca se fecha.
Não admira igualmente que não sejam feitas contas objectivas sobre a relação existente entre o exagerado custo global deste alegado «serviço público de televisão» e os benefícios decorrentes do seu funcionamento. A explicação está facilmente à vista. O Governo é o grande beneficiário deste estado de coisas, uma vez que goza da complacência, mesmo da cumplicidade, da televisão pública que tutela para difundir diariamente a sua propaganda política, sob o manto diáfano, mais encoberto ou mais ostensivo, de «informação». Insere-se neste esquema a influência ou mesmo a interferência do poder governamental na orientação dos noticiários, no alinhamento dos telejornais e nos debates de natureza política, reconhecidamente pouco pluralistas, que constituem uma peça fundamental no processo de manipulação informativa dos cidadãos.