Qualquer um de nós, quando circula pelas ruas de Lisboa (para o fazer tem de andar de olhos bem abertos e ver bem onde põe os pés), já fez certamente a si próprio esta interessante e oportuna pergunta: será que os responsáveis camarários a vários níveis andam de facto a pé pelas ruas, avenidas, praças, largos, travessas, becos, estradas e azinhagas, que constituem a rede viária da cidade? No caso de a resposta ser afirmativa, como parece normal, outra interrogação surge de imediato: será que esses responsáveis municipais andam distraídos e, por isso, não vêm o que nós vemos, nem sentem o que nós sentimos? Ora, o que nós vemos por todo o lado são numerosos e variados obstáculos a uma boa circulação pedestre, segura, tranquila e minimamente confortável. Os passeios continuam a ser pavimentados com a chamada calçada tradicional portuguesa, quando se sabe que praticamente já não há profissionais verdadeiramente especializados nessa arte, que é mais difícil do que parece. Isso nota-se no modo como são preparadas as pedras, de tamanhos e configurações não homogéneos, o que transforma rapidamente o pavimento num piso irregular, com altos e baixos, lombas e depressões, que dificultam a marcha. Conduzir nestas condições um bebé no seu carrinho pode ser aflitivo.
A irregularidade dos pavimentos e a sua degradação provocada pelas raízes das árvores, bem como outros factores, levam ao aparecimento frequente de buracos, que constituem um enorme perigo para quem circula e que muitas vezes ficam longos meses sem reparação, o que significa indiferença e desleixo. Nas ruas muitas passadeiras estão alcatroadas de modo irregular e nem sempre as riscas transversais brancas se encontram devidamente assinaladas, de modo a facilitarem a passagem. Por último, a ocupação de muitos passeios por veículos automóveis (um velho flagelo nunca resolvido) levanta sérios problemas à circulação dos peões e constitui uma ameaça para a sua segurança.
Fala-se hoje muito, parece que bem, em desincentivar o uso do automóvel na cidade. Para o efeito, promoveram-se melhores vias para os transportes colectivos, o que se afigura correcto. Ultimamente têm sido realizados investimentos em ciclovias, o que já parece menos evidente e levanta dúvidas. No entanto, não se fala nos passeios pedonais, embora a marcha seja a forma mais natural e limpa de as pessoas se deslocarem. Porque motivo os interesses e as necessidades dos peões, que, afinal, somos todos nós, são tão subestimados?