terça-feira, 20 de abril de 2010

A CRISE - O GOVERNO PARECE DESORIENTADO

Quem reparar bem, com muita atenção, no modo como o Primeiro-Ministro e o Ministro das Finanças discursam sente que há algo de estranho no ar. De um modo geral, Teixeira dos Santos aparece tenso, crispado, inquieto, algumas vezes até irritado e agressivo. José Sócrates, pelo contrário, como mestre consumado da encenação e do disfarce, surge aparentemente descontraído, sorridente, sem preocupações, como quem está à vontade face à gravidade dos problemas. Ambos, no entanto, convergem num ponto comum: são evasivos e pouco concludentes, fogem ao núcleo duro das questões e desdramatizam e relativizam as notícias menos positivas, sem as encararem de frente.

Na realidade, a crise não desarma e um e outro não parecem estar muito certos sobre o que fazer, presos nos laços do modo de governar que eles próprios teceram, na base simplista de um optimismo voluntarista e artificial. No plano internacional, as agências de rating, os mercados financeiros e os analistas de política económica não dão tréguas e insistem sem descanso. Para desespero do Governo, por essa Europa fora todos os dias são repetidos avisos que não constituem um bom augúrio: «Portugal é o país que se segue à Grécia»; «Portugal é a próxima vítima das agências de rating»; «a economia portuguesa sofre de males endémicos estruturais». De facto, não são registos simpáticos, que exigiriam dos responsáveis governamentais duas atitudes que não são evidentes: amor da verdade e humildade política.

Por força da sua visão egoísta e redutora da acção política, centrada, de modo obstinado, no exercício solitário do poder, sem partilha, o Governo começa a sentir-se encurralado, aparentemente sem saídas, sem capacidade de genuíno diálogo com as forças políticas à sua direita e com o Presidente da República. O povo português perceberá exactamente o que se está a passar ou também andará distraído?