Como sabemos, as medidas governamentais previstas no PEC (Plano de Estabilidade e Crescimento) são fundamentalmente baseadas no agravamento dos impostos. Entretanto, o PSD apresentou uma proposta alternativa que prevê cortes significativos, mesmo drásticos, em várias rubricas da despesa pública, onde há desperdícios, alguns referidos em relatórios oficiais. Esta iniciativa causou, no entanto, um enorme espanto e frémitos de horror do lado socialista. O Ministro da Economia não esteve com meias medidas e afirmou, parece que a sério, que tal proposta era «uma mão cheia de nada».Estes sentimentos de repulsa por se pretender mexer, de forma tão ampla, na «sagrada» despesa do Estado, veio confirmar que, face à grave crise económica e financeira que o país atravessa, a actual orientação política do Governo se encontra num beco sem saída, bloqueada, sem imaginação, sem criatividade, a não ser a que baseia na medida mais fácil e mais primária de todas: voltar a meter as mãos nos bolsos dos contribuintes.
A proposta de redução das despesas estriba-se em realidades evidentes: por um lado, consta de documentos do próprio Estado, como acontece com vários relatórios do insuspeito Tribunal de Contas; por outro lado, quem conhece o modo como funciona a administração pública, em todos os sectores (central, autárquico e de empresas públicas) e está atento aos sinais que todos os dias são dados, sabe que há um enorme desperdício de recursos. O caldo de cultura que alimenta o desperdício vem a ser o mesmo em que viceja a burocracia: a indiferença, o desleixo, a falta de rigor, a ausência de controlo, por vezes a mania das grandezas, ou suma, a inexistência de bom senso e de sentido de serviço público.
É impossível referir nestes curtos parágrafos todas as situações que geram desperdícios, mas são muitos milhares os actos de gestão que originam desperdícios e estes, no seu conjunto, podem atingir valores colossais. Basta dar alguns exemplos de incúria na gestão da coisa pública: excesso de recursos humanos ou o seu mau aproveitamento; falta de rigor na aquisição ou locação de equipamentos e edifícios; existência de práticas laxistas ou de truques administrativos e contabilísticos nas tomadas de decisão; excessos cometidos na adjudicação de obras, umas mal pensadas, outras excessivas para as necessidades reais, outras ainda desproporcionadas para os recursos disponíveis. Não se vai fazer nada contra isto?