quinta-feira, 22 de abril de 2010

A NUVEM VULCÂNICA E O TGV

À primeira vista, pode parecer bastante despropositado ou um contra-senso relacionar os dramáticos acontecimentos, tão divulgados pelos meios de comunicação social, decorrentes do encerramento dos aeroportos a que a erupção vulcânica na Islândia deu origem, e o problema da construção do comboio de alta velocidade (TGV). Na realidade, as duas questões cruzaram-se por estes dias.

Como é sabido, o Presidente da República e a sua comitiva ficaram retidos na República Checa, uma vez concluída a visita oficial que os levou àquele país, pelo que o regresso só foi possível em penosa e demorada deslocação por estrada. À sua chegada a Lisboa, algumas personalidades fizeram, em forma de desabafos de desanuviamento, declarações curiosas. Assim enquanto uns afirmaram que agora estavam convencidos da necessidade de construir o TGV, outros salientaram que as convicções que já tinham a esse respeito saíram reforçadas.

Percebe-se a intenção dos autores das declarações: pretenderam acertar no alvo, constituído pelos chamados «detractores do TGV», entre os quais estão muitos políticos, reputados economistas, empresários, investigadores universitários e gente anónima. Porém, o alvo foi manifestamente mal escolhido, pois partiu do pressuposto errado de que os tais «detractores» rejeitam a ideia do TGV em si mesma, ou seja, são absolutamente contra a sua construção.

A realidade, no entanto, é muito diferente. Qualquer pessoa sensata reconhece que a ideia do TGV é, em si, positiva, pois representa um avanço tecnológico no transporte ferroviário e proporciona ligação à rede europeia em condições de maior rapidez, comodidade e segurança. O que está em causa é uma simples questão de bom senso e de rigor na gestão das finanças públicas. Nem tudo o que é evoluído, importante e útil está necessariamente ao nosso alcance. O problema é puramente financeiro e não é diferente, à sua escala, da questão que se põe a uma família que tenha um grande desejo de comprar um automóvel Mercedes topo de gama, mas que, afinal, só dispõe de recursos, sem se endividar, para comprar um pequeno utilitário familiar.

Para um país que se encontra em situação económica e financeira grave, o cálculo, sério, objectivo e fundamentado, da relação custo/benefício, é absolutamente essencial. Se o défice de exploração do TGV é certo e permanente, qual será o seu efeito na despesa pública? Como evitar que a obtenção dos empréstimos necessários para o financiamento da obra não agrave o nível já tão elevado da dívida, tanto pública, como particular? Como impedir que a aquisição, por via da importação, dos equipamentos e materiais necessários não aumente o já elevado défice externo? Não é honesto fugir a responder frontalmente a estas questões fulcrais ou, o que é pior, tentar dar-lhes resposta, como tem sido feito, através de artifícios de argumentação ou de fantasias de interpretação estatística.