terça-feira, 13 de abril de 2010

A DIFÍCIL RELAÇÃO DO HOMEM COM O TEMPO

É frequente ouvirmos queixas das pessoas sobre a sua relação com o tempo: uns confessam que não têm tempo para nada, outros reconhecem que têm falta de tempo e outros ainda que o tempo lhes escapa a cada momento. Não é de estranhar que isso aconteça, embora seja perturbador, pois o tempo é de facto um bem escasso, já que se traduz num movimento contínuo, numa passagem permanente, numa transição ininterrupta. A cada segundo o que era deixou de ser. Por isso, sentimos que o presente nos foge a cada instante, o que torna muito relativo o seu conceito. Em regra, aquilo a que chamamos presente é apenas um conjunto de momentos sucessivos recentemente passados, cuja utilização e cujo gozo ainda recordamos com intensidade e em pormenor, como se ainda fossem efectivamente presentes.

Por outro lado, o futuro, que há-de ser presente, é uma incógnita, algo que desconhecemos e não controlamos. Por isso, o futuro é sobretudo incerteza e indefinição, uma mera probabilidade. Podemos prever e programar, com maior ou menor rigor, mas não temos a certeza de que as coisas se vão passar exactamente como planeámos e desejámos.

Afinal, o que para nós se apresenta como estável, consolidado, definitivo, é o passado, constituído pelo registo indelével do que já foi presente e que agora apenas podemos considerar de forma retrospectiva, com base na memória. É o passado que define, a pouco e pouco, a nossa vida, delimita os contornos da nossa personalidade, nas suas variadas facetas, define a nossa identidade pessoal, em suma, consolida o nosso eu.

É esta dificuldade de relacionamento do homem com tempo que constitui o seu drama existencial. Todos nós sentimos intimamente o apelo a que o tempo não acabe, para que a nossa personalidade possa subsistir. Perante o evidente fracasso do homem face ao tempo, é possível entrever uma saída, que é consoladora e susceptível de nos dar confiança. Afinal, a nossa vocação última, íntima, é não sermos aniquilados com o decurso do tempo, não sermos reduzidos a nada, não desaparecermos para sempre sem deixar rasto, como se nunca tivéssemos existido.

Se acreditarmos que, como seres humanos únicos e irrepetíveis (ver aqui), fomos criados à imagem de Deus, temos uma base sólida e convincente para confiar que uma tal imagem, personalizada no nosso eu, não será destruída quando terminar o nosso ciclo de vida biológica.