Recentemente, ao ler o livro, denso, A Condição Humana, da filósofa e pensadora política Hannah Arendt, de origem judaica, nascida na Alemanha em 1906 e falecida nos Estados Unidos da América em 1975, deparou-se-me o seguinte trecho, que vale por si como se fosse um tratado: «O nascimento e a morte de seres humanos não são ocorrências simples e naturais, mas referem-se a um mundo ao qual vêm e do qual partem indivíduos únicos, entidades singulares, impermutáveis e irrepetíveis». Ao parar um pouco para reflectir sobre esta afirmação tão profundamente verdadeira fica-se com a sensação de que muitos de nós, enredados no que consideramos os complexos trabalhos do dia a dia, ainda não nos apercebemos do extraordinário estatuto de que goza o ser humano, tão esquecido e tão vilipendiado em tantas situações.Quem pensar de facto que cada um de nós tem as qualidades da unicidade e da singularidade, imersos na massa anónima em que diariamente mergulhamos, parece difícil imaginar esta coisa absolutamente maravilhosa de sermos seres únicos e singulares. É como se cada um de nós fosse o único habitante da terra. Por isso, essa essencial unicidade e singularidade que nos caracteriza faz com que não sejamos passíveis de permuta ou substituição, pois somos absolutamente irrepetíveis.
Em toda a história da humanidade nunca houve nem jamais haverá alguém que seja como nós, sobretudo no que tem que ver com a personalidade, a essência do eu, a identidade específica de cada um. Somos irredutivel e definitivamente únicos.
Vista a esta luz, a perspectiva que temos dos seres humanos muda radicalmente. Passa ser diferente o modo como consideramos problemas como o do aborto ou da eutanásia e situações como a dos seres humanos desprovidos de recursos mínimos para viverem com decência ou ainda dos que são menos dotados de atributos físicos ou intelectuais. Como cada um de nós é único, nenhum de nós está a mais e todos fazem falta, pois a dignidade da condição humana é a mesma para todos.