Ma
l podemos imaginar, se é que podemos, a intensidade das preocupações e a amplitude da angústia sentida pelo Papa Bento XVI perante a sucessão de anúncios de casos de pedofilia, em que estiveram envolvidos sacerdotes nas últimas décadas. As notícias surgiram primeiro nos Estados Unidos, depois na Irlanda, a seguir na Alemanha e agora na Áustria e na Holanda. Que mais países se seguirão? O que é comum a todas as situações verificadas é o facto do seu encobrimento por parte das autoridades eclesiásticas, que privilegiaram as soluções discretas internas, em regra mediante a simples transferência dos responsáveis para outros locais e a indemnização particular de indemnizações às vítimas.
l podemos imaginar, se é que podemos, a intensidade das preocupações e a amplitude da angústia sentida pelo Papa Bento XVI perante a sucessão de anúncios de casos de pedofilia, em que estiveram envolvidos sacerdotes nas últimas décadas. As notícias surgiram primeiro nos Estados Unidos, depois na Irlanda, a seguir na Alemanha e agora na Áustria e na Holanda. Que mais países se seguirão? O que é comum a todas as situações verificadas é o facto do seu encobrimento por parte das autoridades eclesiásticas, que privilegiaram as soluções discretas internas, em regra mediante a simples transferência dos responsáveis para outros locais e a indemnização particular de indemnizações às vítimas.A táctica do silêncio, porém, por muito que dure, nunca é eficaz. Perante a amplitude dos escândalos, entretanto revelados publicamente, vários bispos foram obrigados a resignar ou sentiram-se na necessidade de o fazer. Sendo assim, porque se optou pelo silêncio do encobrimento? O silêncio e o encobrimento são práticas estruturalmente inerentes às organizações fechadas, muito hierarquizadas, em que os chefes e os hierarcas dispõem de muito poder e o exercício deste poder não é partilhado ou, ao menos, assessorado por órgãos colegiais, logo plurais, onde o debate e o contraste de ideias e de opiniões permitem o escrutínio das situações, que assim se tornam mais transparentes e compreensíveis. Por outro lado, o exercício de um poder fechado faz facilmente apelo à autopreservação e autodefesa, pelo que os problemas tendem a ser resolvidos também em circuito fechado, com o mínimo de efeitos para o exterior.
Além disso, o poder fechado tem naturalmente muita dificuldade em fazer a sua autocrítica, de modo que tende a minimizar ou a desvalorizar a gravidade dos erros cometidos, quer pela instituição, quer pelas pessoas que a integram. A defesa da instituição e daquilo que é considerado o seu bom nome constitui critério prioritário de actuação, que pode prevalecer mesmo sobre os direitos individuais das pessoas.
Ora, como sabemos, na sua organização visível,
humana, a Igreja tem uma longa tradição, já secular, de utilização das técnicas do silêncio, da reserva e do segredo. Basta referir a tradicionalmente chamada «diplomacia secreta do Vaticano». Foi de acordo com esta prática que, como se viu há tempos, o Cardeal Patriarca de Lisboa realizou em Outubro de 2009 uma reunião com o Primeiro-Ministro, de que nada transpirou, até os jornais falarem nela. Obedece ao mesmo princípio o processo, extremamente discreto, de escolha dos bispos das dioceses.
humana, a Igreja tem uma longa tradição, já secular, de utilização das técnicas do silêncio, da reserva e do segredo. Basta referir a tradicionalmente chamada «diplomacia secreta do Vaticano». Foi de acordo com esta prática que, como se viu há tempos, o Cardeal Patriarca de Lisboa realizou em Outubro de 2009 uma reunião com o Primeiro-Ministro, de que nada transpirou, até os jornais falarem nela. Obedece ao mesmo princípio o processo, extremamente discreto, de escolha dos bispos das dioceses.Insere-se ainda nesta tendência a escassez de informação pública regular sobre o que se passa nas dioceses e nas demais organizações católicas. Deste modo, vivendo nós hoje em sociedades muito mediatizadas, em que a busca da informação é permanente, quando alguma coisa sai fora dessas fronteiras fechadas, e saem preferencialmente as coisas negativas, a repercussão é sempre grande e tende a ter reflexos exagerados ou desproporcionados. O culto do segredo torna sempre mais apetitosa e traiçoeira a revelação do mesmo segredo.