Por vezes dá a impressão de que a sociedade é dominada por um ambiente malsão, em que a indiferença é mais forte do que a indignação, em que tudo parece normal, mesmo quando se está perante efectivas anormalidades. Recentemente, no meio do anúncio do Plano de Estabilidade e Crescimento e dos enormes sacrifícios que os portugueses, mesmo os apenas medianamente remediados, vão ser chamados a fazer nos próximos quatro anos, foi noticiado que os gestores de empresas públicas ou comparticipadas pelo Estado iriam receber chorudos bónus como «prémios de desempenho».Trata-se de uma situação manifestamente escandalosa, antes de mais pelo violento contraste de situações entre uma elite privilegiada (uma espécie de oligarquia) e o grosso da população, que vai ser objecto de uma enorme carga fiscal destinada a pagar o descontrolo das contas públicas, de que essa mesma oligarquia, constituída em grande parte por gastadores compulsivos, é também responsável.
O problema, porém, é mais grave e mais profundo. Indo à substância das coisas, devemos perguntar: justifica-se mesmo a existência de prémios de desempenho? De facto, o pagamento desses elevados suplementos remuneratórios parece significar que as remunerações normais dos gestores se destinam apenas a retribuir o facto de ocuparem os seus cargos, sem qualquer exigência específica em matéria de desempenho, o que se afigura absurdo. Qualquer remuneração, seja de que nível for, de um simples trabalhador, de um gestor ou de um político, destina-se, de certo, a remunerar o exercício das respectivas funções, mas este, pela sua própria natureza, deve pressupor sempre um bom desempenho. A excelência deve ser uma exigência universal.
Seria imoral admitir que alguém fosse remunerado apenas para assegurar um desempenho mínimo, quando muito médio, ficando o bom desempenho dependente da garantia de remunerações adicionais. Uma tal perspectiva equivaleria a aceitar que os gestores pusessem a questão mais ou menos nestes termos: «a minha remuneração como administrador ou director paga apenas o facto de eu ocupar este lugar, pelo que, se quiserem que eu trabalhe bem, com bons resultados, têm de me pagar mais». Na realidade, o que se pretende nestes casos é disfarçar o nível real das remunerações através de um truque contabilístico no processamento das compensações financeiras atribuídas. Deste modo, a remuneração real será sempre muito superior à remuneração formal, aparente.