Todos nos recordamos do clamor, manifestamente artificial, que se ouviu da parte do Partido Socialista, por ocasião da campanha eleitoral para as eleições legislativas de Setembro de 2009, a propósito do facto de outros partidos não terem apresentado programas eleitorais tão atempadamente como ele tinha feito e, sobretudo, pela circunstância de tais programas serem pouco desenvolvidos, quando comparados com outros, que, de aspecto prolixo, continham centenas de páginas. Parecia estar implícito que em tais programas é mais a quantidade do que a qualidade que deve estar em causa.Do mesmo modo, o Governo elabora regularmente extensos programas de actividades dos diferentes ministérios. Em regra, tais planos são apresentados como catálogos pormenorizados de medidas, possíveis ou apenas hipotéticas, correspondentes a ideias e projectos políticos que se consideram desejáveis, mas sem a certeza da sua oportunidade e sobretudo a garantia da sua exequibilidade, tanto em termos materiais, como financeiros. Constituem, afinal, apenas manifestações de boa vontade ou de intenções baseadas em compromissos ideológicos e não de forma alguma compromissos de governação firmes, estudados e fundamentados com rigor e solidamente estruturados. Representam também, à sua maneira, uma forma de encenação política.
Parece evidente, de acordo com a experiência, que um plano assim concebido, enquanto conjunto rígido, extenso, demasiado pormenorizado, de objectivos, medidas e acções, se torna fácil e rapidamente desajustado face à dinâmica e mutabilidade das condições sociais, económicas e financeiras envolventes, que condicionam muito fortemente a concretização das medidas previstas. Desse modo, corre-se o risco de algumas decisões virem a ser tomadas fora do contexto e dos pressuspostos em que se baseou a sua previsão, enquanto outras serão pura e simplesmente abandonadas, o que torna facilmente o plano, tão laboriosamente elaborado, num todo incoerente ou pouco eficaz.
Tudo isto significa que os responsáveis pelos planos devem, despindo a sua roupagem tecnocrática, ser sábios, prudentes e sensatos, cuidadosos e realistas, rigorosos e fundamentados. Dessa forma poderão fugir à tentação de programar medidas tiradas apenas das suas cabeças, sem adequação às realixdades, ou influenciadas por razões partidárias ou ideológicas e ser bem sucedidos no esforço sincero de avaliar bem, com objectividade, as verdadeiras necessidades e aspirações das populações. É essa, afinal, a missão fundamental da acção política.