terça-feira, 23 de março de 2010

O INACREDITÁVEL ACONTECEU EM JERUSALÉM

Durante a recente visita do vice-presidente norte-americano Joe Biden a Israel e à Cisjordânia um ministro israelita, manifestamente com a concordância, tácita ou expressa, do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, declarou que iriam ser construídas mais 1600 casas em Jerusalém Oriental que, como se sabe, é reivindicada pela Autoridade Palestiniana como capital do seu futuro estado.

Não obstante para muitos uma tal afirmação ter sido intencionalmente provocatória e outros a terem considerado um verdadeiro insulto, uma vez que o congelamento das construções na Cisjordânia ocupada tem constituído uma exigência da comunidade internacional (ainda recentemente o Quarteto para o Médio Oriente a salientou), a verdade é que as reacções oficiais foram relativamente brandas, como se, espantosamente, os Estados Unidos tivessem receio de melindrar Israel, mesmo quando este país não cumpre as leis internacionais e as recomendações da ONU. A única voz realmente dura que por estes dias se fez ouvir foi a do Secretário-Geral das Nações Unidas.

Entretanto, como se tudo o que se passou não fosse suficiente, o primeiro-ministro israelita, a poucos dias de se deslocar aos Estados Unidos, onde falará com o presidente Obama (que lhe dirá este?) afirmou categoricamente que construir em Jerusalém é como construir em Telavive. Esta afirmação parece afrontosa e de novo provocatória, uma vez que a cidade de Telavive está por inteiro sob soberania israelita, há muito internacionalmente reconhecida, enquanto Jerusalém Oriental é considerada juridicamente sob ocupação, já que a comunidade internacional não reconheceu a anexação, decidida unilateralmente, pelo governo de Israel.

Para quem, como eu, que admira o povo judaico e a sua história e tem apreço por Israel, um estado construído praticamente a partir do nada, num esforço gigantesco e meritório de que há poucos exemplos na história, a perplexidade é muita, pelo que dá para perguntar: porque motivo as coisas se passam assim? Tudo parece resultar da enorme ambiguidade que ao longo das últimas décadas se foi estabelecendo entre Israel, que é uma entidade política como qualquer outra, passível, portanto, dos defeitos inerentes aos estados (orgulho nacional excessivo, oportunismo político, cultura nacionalista e tentações de imperialismo) e o povo judaico, sujeito, ao longo dos séculos, a grandes injustiças e a enormes perseguições e sofrimentos, que culminaram no inenarrável acontecimento do Holocausto, verificado durante a II Guerra Mundial.

Por força desta ambivalência, ter-se-á criado uma cultura e uma prática algo perversas, porventura alimentadas por alguns sectores políticos em Israel, segundo as quais as críticas dirigidas a certas políticas concretas de Israel são no fundo críticas aos judeus, enquanto tais, sem consideração pelo sofrimento histórico do povo judaico. Por isso, a complexidade do problema israelo-palestiniano atingiu níveis tão elevados e inextricáveis que aos olhos de muitos o tornam incompreensível, mesmo absurdo, já que nele, umas vezes, a racionalidade se mistura de forma estranha e profunda com a paixão, e, outras vezes, a política anda de mãos dadas com a religião e esta com aquela.