Foi de facto a «nossa irmã morte», para usar esta bela e comovente expressão de São Francisco de Assis, a responsável pela breve paragem verificada na sequência das minhas mensagens deste blogue. Na verdade, a morte pode fazer-se anunciar com antecedência, de modo a tornar previsível, às vezes até de forma quase calendarizada, este acontecimento inevitável, inerente à condição humana. Mas pode também surgir repentinamente, de forma inopinada e furtiva, mas rápida, surpreendendo tudo e todos. Foi esta modalidade de morte que num ápice retirou o meu irmão António do número dos vivos, ele que foi o quarto de cinco irmãos a partir.A morte continua a ser para muitos um fenómeno inquietante e trágico, misterioso e assustador. De facto, ela perturba na medida em que contradiz tudo aquilo que é próprio da personalidade do ser humano, que sente um apelo íntimo à continuidade, à permanência, quando, afinal tudo parece parece precário, destinado a acabar com o termo da vida. Esse desejo obscuro, mas profundo, de permanência revela-se em numerosas situações: materiais, como na constituição de património, que não se extingue; sócio-culturais, como na constituição de instituições de benemerência ou na criação de obras literárias ou artísticas, que perduram; cívicas, como na actuação em instituições políticas, que a memória pública regista; familiares, já que tais vínculos não se desvanecem mais.
No entanto, só a perspectiva cristã alterou completamente, porventura de forma revolucionária, a ideia naturalmente humana da morte, ao ponto de lhe chamar «a nossa irmã». De facto, aceitando o preceito bíblico de que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, facilmente se percepciona que uma tal imagem, pelo valor intrínseco que apresenta, não deve ser aniquilada, feita regressar ao nada. Por outro lado, acreditando na ressurreição de Jesus Cristo, que constitui a mensagem evangélica central, somos levados a concluir, como já são Paulo tão veementemente salientava, que também nós seremos corporalmente transformados. Por isso, o ser humano integral permanecerá, como é sua aspiração muito profunda, embora de modo diferente daquele que caracterizou a sua vida terrena.