sábado, 6 de março de 2010

NÃO COMPETE AO ESTADO CONSTRUIR ALTARES

A peregrinação de Bento XVI a Fátima, que constituía inicialmente quase o único objectivo da sua vinda a Portugal no próximo mês de Maio, foi entretanto alargada de modo a incluir outros eventos, como alguns encontros de natureza cultural e pastoral e celebrações eucarística em Lisboa (Praça do Comércio) e no Porto (Avenida dos Aliados). Uma missa ao ar livre não é diferente da que ocorre numa igreja, a não ser no facto de que, sendo em lugar público, requer a colaboração dos poderes públicos, tal como acontece com outros acontecimentos de massas, como as manifestações, os festivais artísticos e outros encontros colectivos. Tal colaboração limita-se naturalmente ao que é da responsabilidade específica das autoridades (Governo e Câmara Municipal), como a disponibilização do espaço, a garantia da segurança e o condicionamento do trânsito rodoviário. O resto, naturalmente, é com a Igreja e os cristãos.

No entanto, os jornais acabam de relatar informações transmitidas pelo porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, segundo o qual a Igreja Católica acolheria com agrado a contribuição da Câmara Municipal de Lisboa para a estrutura a montar onde se situará o altar da missa, cujo custo poderá rondar os 200.000 euros. A despesa com o altar do Porto, mais pequeno do que o de Lisboa, será assegurada pela Câmara Municipal, que tomou por si a iniciativa de fazer a oferta. No fundo, aquela informação significa que Igreja está de facto a pedir ou a sugerir à Câmara de Lisboa que assuma a mesma atitude.

Há qualquer coisa de intrigante e perplexante nesta informação. O altar, qualquer que seja, pequena ou grande, a sua estrutura (e poderá ser legítimo perguntar de duzentos mil euros não será um exagero) é uma peça fundamental da celebração eucarística, como são os paramentos e tudo aquilo que integra o ritual litúrgico. Assim, deverá ser apenas da responsabilidade da Igreja e dos cristãos custear os encargos necessários para o efeito, gastando-se apenas aquilo que é possível gastar. De resto, bastaria que cada um dos prováveis 600.000 participantes nas três celebrações eucarísticas (Lisboa, Fátima e Porto) pagasse uns modestos cinquenta cêntimos para que ficasse assegurado o financiamento das estruturas dos altares.

A Igreja não pode nem deve ficar a dever nenhum favor, ainda por cima financeiro, ao poder político ou ao poder autárquico, independentemente do bom relacionamento que porventura exista com ambos, dado que tais poderes integram por inteiro unicamente o território de César, enquanto as celebrações eucarísticas pertencem em exclusivo ao domínio de Deus. Por isso, não é função de César construir altares, quer por sua iniciativa, quer a pedido da Igreja.