terça-feira, 30 de março de 2010

O RELATIVO FRACASSO DE MANUELA FERREIRA LEITE

Tenho respeito e admiração por Manuela Ferreira Leite, tanto no plano pessoal, como no domínio político. Por isso, sinto-me à vontade a redigir, sem constrangimentos, um texto com aquele título, como reflexão de despedida, na altura em que deixa a presidência do Partido Social Democrata, na sequência das eleições internas realizadas no dia 26 de Março. A consideração política por alguém tem como pressuposto a sinceridade na apreciação do desempenho político verificado, tanto quanto é possível fazer um juízo tranquilo e isento. O ponto de partida da análise é este: para ser eficaz, a acção política deve basear-se em três pressupostos fundamentais: a substância, a forma e a relação. Vejamos como se posicionou Manuela Ferreira Leite relativamente a cada um destes requisitos.

A substância são as ideias, os projectos de políticas e as propostas de decisão, enquadradas numa ponderação correcta e objectiva da realidade. Foi este o campo de eleição da intervenção política, de grande qualidade, da ex-líder do PSD, designadamente nas áreas da economia e das finanças. Pode dizer-se que nestes domínios fundamentais acertou de modo rigoroso em todos os diagnósticos e nas correspondentes acções a empreender. O Governo, que sempre desdenhou das suas opiniões, vê-se agora forçado a dar-lhe inteira razão, embora tarde e a más horas, com os inconvenientes daí resultantes. No entanto, se é certo que dominou a cem por cento os principais problemas que caracterizam a grave crise que aflige o país, foi notoriamente menos interventora noutras áreas substantivas da governação, como a agricultura, as pescas, o ambiente, a justiça, a educação, as forças armadas e as relações externas.

A forma são os instrumentos de comunicação e os métodos de intervenção. Aqui, por feitio próprio e, sobretudo, por opção pessoal, Manuela Ferreira Leite soçobrou de modo claro, o que diminuiu bastante a eficácia da sua acção substantiva. Para serem bem difundidas, as ideias têm de se apoiar num discurso minimamente articulado, claro, fluente e apreensível, bem como numa razoável capacidade de diálogo e interlocução, o que de um modo geral não aconteceu. Por outro lado, foi claramente insuficiente o seu sentido de iniciativa, quer por antecipação, quer por reacção às atitudes dos adversários políticos, quer ainda na escolha da melhor oportunidade de intervenção.

A relação diz respeito à capacidade de relacionamento com os demais agentes políticos, quer dentro do partido de que era presidente, quer com os responsáveis dos demais partidos políticos e órgãos de soberania. No primeiro caso, foi notória a sua enorme dificuldade em lidar com as oposições internas, organizadas à volta dos demais políticos que disputaram as eleições internas, em especial com Pedro Passos Coelho, com quem manteve um contencioso nunca ultrapassado nem resolvido. O mesmo se passou, em geral, com os demais interventores políticos, em particular com o Primeiro-Ministro José Sócrates. Uma oposição firme e coerente, mesmo agressiva, não tem necessariamente que se traduzir em mau relacionamento pessoal com os adversários.