segunda-feira, 1 de março de 2010

CIVISMO E DESENVOLVIMENTO

Nos últimos tempos a palavra «crise», sem qualquer adjectivação, tornou-se praticamente sinónimo de «crise económica e financeira». Por isso, predominam as análises quantitativas, tanto retrospectivas, como prospectivas. Só acidentalmente alguns se aventuram a referir que entre as causas do descalabro da economia e do atraso do país está também uma certa «crise humana», que lhe está subjacente. Por exemplo, quando da grave crise financeira internacional que afectou o sistema bancário, falou-se muito da ganância dos banqueiros e dos especuladores, bem como dos seus esquemas de engenharia financeira arriscada, mas esqueceu-se de referir que houve também atitudes gananciosas da parte de muitos investidores, que correram imprudentemente atrás de lucros fáceis.

Fala-se também muito dos indicadores económicos e financeiros, mas quase não se faz referência aos indicadores de civismo dos cidadãos, que podem exprimir o seu grau de empenhamento social e comunitário, fundamental para que as energias colectivas sejam mais bem aproveitadas e possam desse modo contribuir para um maior desenvolvimento sustentado. E compreende-se porquê. De facto, o civismo implica da parte dos cidadãos determinadas atitudes de grande significado, como: o interesse activo pela coisa pública e, se for caso disso, a participação pessoal no funcionamento das instituições; o respeito pelos valores prevalecentes na sociedade e pelas suas instituições; o sentido de responsabilidade como cidadãos, que devem estar motivados no desempenho das suas funções, tanto públicas, como privadas.

Deste modo, a recuperação da economia do país e o aumento do bem-estar dos portugueses não se conseguem apenas com medidas de natureza económica e financeira, nem dependem unicamente das decisões do poder político, sobretudo da acção do Governo. Pelo contrário, implicam também uma certa forma de regeneração e mobilização da sociedade através do aumento da participação cívica dos cidadãos e do reforço do seu empenhamento, motivado e eficaz, em todas as actividades em que estão envolvidos.

Tem sido este o grande equívoco dos nossos governantes. Pensam que dispõem de uma espécie de varinha mágica, julgam que tudo se resolve com pacotes de medidas, enquadradas num discurso de optimismo fácil, muitas vezes forçado, e parecem esquecer-se de que é na sociedade civil, que integra os milhões de cidadãos que somos todos nós, que funciona a economia, que se cria a riqueza ou, pelo contrário, se abrem as portas à pobreza.