segunda-feira, 29 de março de 2010

OS «TRABALHOS DE HÉRCULES» DO NOVO LÍDER DO PSD

Como já foi referido noutro lugar, há muito que o Partido Social Democrata sofre de uma grave crise interna, motivada por divisões, clivagens e rivalidades, que não são tanto de natureza ideológica ou programática, mas resultam antes da diversidade e incompatibilidade de grupos de interesses e sensibilidades, agravadas pelo peso da importância que têm os poderes regionais situados nas autarquias locais ou delas emergentes. Tudo isto, temperado com resquícios de uma cultura própria de caciquismo, conduziu o partido àquilo a que alguns chamam «balcanização», enquanto outros preferem usar a expressão «feudalização». Daqui resultou uma fragmentação geral do poder partidário, que enfraqueceu ao nível central e se tornou excessivo ao nível local. Como sintoma bastante negativo desta situação está o facto de em 15 anos o partido ter conhecido nada menos do que oito presidentes.

Por isso, como Pedro Passos Coelho, presidente eleito no passado dia 26, reconheceu avisadamente no seu discurso de vitória, a principal e imediata preocupação do líder deve consistir no difícil, talvez mesmo ciclópico, trabalho de refazer o mais possível a unidade do partido. Para o efeito, deve actuar ao contrário do que em geral fizeram os anteriores líderes, que dirigiram o partido através dos seus grupos de apoio, que nalguns casos se transformaram em facções. Por isso, é imperioso que não se exclua ninguém, mas que todos sejam integrados, para que a união exista de facto, em termos práticos, e não apenas em declarações de intenção. Isso passa, naturalmente, por atribuir cargos e responsabilidades políticas aos candidatos vencidos, única maneira de evitar que, mesmo contra a vontade destes, se criem facções à sua volta.

Não basta, no entanto, a integração das pessoas, é absolutamente indispensável assegurar também a integração das ideias e dos projectos, através da harmonização e do ajustamento dos programas políticos apresentados nas eleições internas do partido, de modo a construir uma plataforma comum de medidas de política que possa ser apresentada aos portugueses. Perante as graves dificuldades que o país atravessa, esta conjugação programática é fundamental, para que seja clara, sólida e evidente a existência de uma alternativa política ao actual governo do Partido Socialista.

Para ser eficaz, esta harmonização programática implica também uma certa, porventura difícil, harmonização dos traços fundamentais do discurso político, que deve ser feito sem fissuras, clivagens ou contradições, sem prejuízo, naturalmente, do estilo próprio de comunicar de cada responsável partidário. O pluralismo de formas e de métodos de comunicação só poderá enriquecer o acervo programático ou banco de ideias comum entretanto consensualizado.