sábado, 10 de outubro de 2009

O PSD ENREDADO NAS SUAS FACÇÕES



Como sabemos, o pluralismo é inerente a qualquer organização partidária, já que traduz a liberdade de expressão de cada um. É natural, por isso, que dentro de um partido, como corpo social vivo, diversificado e dinâmico, se formem correntes de opinião, umas sobre aspectos mais substantivos, outras respeitantes a questões mais instrumentais. É nessa perspectiva que se formam as tendências, as quais naturalmente se manifestam no interior do partido, nos órgãos próprios eleitos. Porém, há, como não podia deixar de ser, limites a essas clivagens e sensibilidades, pelo facto de terem de se articular com os interesses gerais ou comuns do partido, que permanecem acima das formas particulares de exprimir opiniões. E um desses interesses (unidade na diversidade) exige que tais correntes de opinião, legítimas em si mesmas, não se pervertam, transformando-se em verdadeiras facções, que enfraquecem, fraccionam e desagregam o partido.

A facção ultrapassa a fronteira da legítima tendência e cria um processo patológico no interior do partido quando são quebrados deveres fundamentais da actividade partidária, como a lealdade, a sinceridade e o simples bom senso. A sã luta política num partido não pode ser uma guerrilha organizada, em que a hipocrisia, o fingimento e a demagogia são as armas normais de arremesso. A actividade das facções manifesta-se muitas vezes de forma insidiosa, tentando criar na opinião pública a ideia de que estão a actuar correctamente. É na praça pública que as facções vicejam e prosperam, alimentadas pelos meios de comunicação social, ansiosos por «novidades» e por «casos». Por isso, os elementos de uma facção não resistem ao poder atractivo de um microfone e debitam considerações sobre considerações, sem se aperceberem dos trunfos que estão a dar aos adversários. A miopia política é uma das características da facção.

O espectáculo que o PSD, trilhado internamente por facções e subfações, tem dado há algum tempo (há demasiado tempo) faz lembrar o período da história, na Alta Idade Média, em que se desenvolveu o feudalismo, quando os estados nações então em formação tentavam consolidar-se. Nessa altura os poderes centrais, que procuravam exprimir os interesses gerais emergentes, eram combatidos, por vezes ferozmente, pelos poderes locais, centrífugos, egocêntricos e sem visão de conjunto. Não é por acaso que tão frequentemente se fala dos «barões do PSD», numa recordação histórica apropriada dos barões medievais, centrados nos seus feudos, ciosos dos seus pequenos territórios, em constante rivalidade, mesmo em conflito, uns com os outros, sem capacidade de visão para além das muralhas dos seus castelos fortificados. No entanto, convém recordar, levou tempo, mas o feudalismo acabou. É mais uma lição da história.