O combate político tem, em muitos aspectos, bastantes semelhanças com a luta física, mesmo com a luta armada, a guerra, só que nele apenas se degladiam ideias, projectos e propostas, expressos por palavras, através do discurso e do diálogo. Assim, se em democracia o voto é a arma do povo eleitor, que assim designa os seus representantes nos órgãos do Estado que exercem o poder, a palavra é a arma fundamental dos políticos, já que a comunicação é absolutamente essencial para a acção política. O combate político pela palavra é mais visível e extremado nas campanhas eleitorais, como este ano tivemos ocasião de observar abundantemente, mas verifica-se também na acção política do dia a dia. No entanto, se a palavra é uma verdadeira arma, utilizável, quer para acções meramente defensivas, quer para movimentos claramente ofensivos, isso significa que também pode ferir, com maior ou menos gravidade, e pode também ser de algum modo letal. De facto, há agressões verbais pela palavra que podem de certa forma criar situações equivalentes a «morte» cívica ou moral dos atingidos, deixando um rasto duradouro de danos muitas vezes irreparáveis. Creio que no nosso país há uma certa tendência a vários níveis e em diferentes instâncias para aceitar com grande benevolência, bastante «compreensão» e evidente displicência graus elevados de violência verbal no discurso político, como se a discussão política tivesse necessariamente que ser feita desse modo. A elegância acutilante da palavra e a ironia refinada do discurso podem ser adequadamente agressivos, animar o debate político e provocar réplicas interessantes sem ferirem desnecessariamente o adversário de tantas formas que o bom senso e a simples boa educação claramente rejeitam, como o discurso aos gritos, os remoques maldosos, as insinuações impróprias ou mesmo falsas, os ataques estritamente pessoais, as acusações descabeladas, bem como a deturpação intencional das palavras, dos objectivos ou dos progamas dos adversários políticos. Mesmo quando a agressividade verbal, ainda que excessiva, não ultrapassa os limites do enquadramento criminal, há imperativos éticos ou simples exigências de civismo e de sã convivência democrática que a deveriam impedir. Na realidade, a violência verbal gratuita do discurso político traduz muitas vezes apenas a falta de argumentos sólidos e a pobreza substantiva da comunicação, enquanto outras vezes é consequência de uma postura puramente demagógica, populista e cínica no debate político.