terça-feira, 6 de outubro de 2009

NÃO HÁ LIMITES PARA OS PROTESTOS?


A produção de leite encontra-se em crise, que alguns dizem ser grave, na generalidade dos países europeus, em consequência da retracção dos mercados face ao nível elevado da produção, o que, no contexto da actual crise económica global, levou a uma descida significativa dos preços. Em poucos meses a preocupação dos produtores transformou-se em angústia e depois em desespero, que costuma ser mau conselheiro. Não admira, por isso, que os protestos tenham degenerado rapidamente em formas radicais de manifestação, que levaram alguns produtores, rodeados de grande aparato mediático, em especial em países como a França, a Bélgica e a Alemanha, a derramarem (literalmente, deitarem fora) centenas de milhar de litros de leite. Objectivamente, tratou-se do desperdício em grande escala de um produto fundamental para a alimentação humana, sobretudo das crianças, que são as principais vítimas das carências alimentares graves existentes em muitas partes do mundo.

Não me recordo de ter detectado críticas, ainda que moderadas, ou até mesmo simples reservas cautelosamente expressas ao comportamento dos produtores de leite europeus, que adoptaram aquele modo extremo de protesto como forma de pressão sobre a Comissão Europeia. Por muita razão que lhes assista (têm-na certamente), parece difícil não reagir com estupefacção e frontal discordância a um protesto tão desproporcionado, que provocou um enorme esbanjamento de bens. Uma acção desta natureza não pode deixar de ser considerada como fruto de uma certa forma de egoísmo social de grupo e de ausência de sentido de solidariedade, num mundo como aquele em que vivemos, assolado por tantas crises interligadas, a exigir uma forte cooperação entre todos os sectores de todos os países.

O caso da França parece mais preocupantemente paradigmático. Trata-se, com efeito, do país que ao longo de décadas mais tem beneficiado de substanciais ajudas financeiras proporcionadas pelos programas da política agrícola comum da União Europeia. Trata-se igualmente do país que continua, muito justamente, a orgulhar-se da sua emblemática defesa da «liberdade, igualdade e fraternidade». Porém, como é possível conciliar este nobre lema, que implica um forte apelo à solidariedade humana, com o enorme desperdício de recursos a que deliberadamente se procedeu? Por isso, nas actuais circunstâncias, parece ter perdido sentido o conhecido aforismo «não vale a pena chorar o leite derramado». Claro que vale a pena.