segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O NOVO GOVERNO DE SÓCRATES

O anúncio do novo Governo, que hoje tomou posse, provocou a habitual catadupa de comentários, opiniões, análises, pontos de vista e previsões sobre a nova equipa governamental, designadamente no que se refere aos novos ministros. Parece aconselhável ser cuidadoso nesta matéria, pois pode ser prematuro arriscar juízos antecipados, que pretendam, no fundo, ser uma espécie de profecia sobre o que aí vem. O juízo valorativo do Governo só poderá ser feito sobre factos, logo nunca antes de terem decorrido seis meses de governação. Com efeito, é uma incógnita antecipar de forma segura como irão actuar os novos ministros Quanto aos repetentes, não sabemos até que ponto vão mudar, e em que sentido, a prática política a que nos habituaram no anterior executivo. No entanto, se não parece razoável antecipar muito como vão governar os membros do novo gabinete, já que tanto podem decepcionar como surpreender ou apenas confirmar o que deles se esperava ou não esperava, é perfeitamente apropriado questionar as opções políticas do Primeiro-Ministro, que estão na base das escolhas feitas e o responsabilizam directamente.

O núcleo duro do governo é o mesmo, o que significa que neste aspecto tudo continuará na mesma, ou talvez pior, atendendo ao forte desgaste provocado por mais de quatro anos de governação com elevado nível de crispação e agressividade, arrogância e tiques autoritários. Poderia ser útil ao Primeiro-Ministro ter vozes novas neste «colégio estrito», pois permanece o peso do passado e os tempos são outros. José Sócrates não quis arriscar, mas terá feito mal. Por outro lado, não sabemos se os ministros independentes, que aparecem com uma aura tecnocrática, têm pessoalmente cultura política e senso político, que vão ser necessários, pois a carga política de um governo minoritário é maior, sobretudo na situação em que se encontra o país. O facto de serem considerados fiéis ao Primeiro-Ministro será certamente negativo se tal fidelidade funcionar, como muitas vezes acontece, como simples seguidismo acrítico e acéfalo. José Sócrates precisa, mais do que nunca, de colaboradores que, sendo caso disso, lhe saibam dizer honestamente não.

Noutra perspectiva, entende-se mal a permanência, embora noutra pasta, do ministro Augusto Santos Silva, que no anterior executivo foi o rosto flagrantemente mais visível e perturbador da pesporrência, arrogância, altivez e extrema agressividade verbal para com os partidos da oposição. Por outro lado, devendo o Ministério do Trabalho ser, por natureza, um grande moderador entre as naturais tensões contrastantes dos empresários e dos trabalhadores, é difícil perceber a escolha de uma sindicalista, por muito grandes que sejam as suas qualidades pessoais e políticas. Quer queiramos, quer não, em política o que parece tende a ser e as primeiras imagens são as piores e mais duradouras.