Um conhecido filme de aclamação do regime nacional socialista da Alemanha, realizado em 1935 pela famosa cineasta Leni Riefenstahl (1902-2002) por ocasião do congresso do partido, em pleno período ascendente de Adolfo Hitler, tinha o sugestivo título O Triunfo da Vontade. Esta glorificação da capacidade dos homens para, através do puro exercício da sua vontade, conseguirem feitos assinaláveis e assegurarem êxitos indiscutíveis nas iniciativas levadas a cabo, tinha, como não podia deixar de ser, um enquadramento político-ideológico totalitário e desenvolveu-se numa perspectiva cultural e religiosa de verdadeiro neo-paganismo. No entanto, deixou bem claro (é esse o lado positivo da mensagem da película) até onde pode chegar a vontade humana. Essa indicação resulta, aliás, da própria análise da história, que contém inúmeros registos da elevada capacidade, tanto construtiva como destrutiva, da vontade humana.Curiosamente, a liturgia das celebrações eucarísticas de hoje da Igreja Católica põem de certo modo o acento tónico na mesma perspectiva: o poder da vontade humana. Com efeito, é recordado o episódio, relatado no Evangelho segundo Marcos (capítulo 10, 46-52) da cura operada por Jesus Cristo de um homem cego. Primeiro, este homem implorava fortemente ser levado à presença de Jesus e quando isso aconteceu e lhe foi perguntado o que pretendia, respondeu sem hesitações e cheio de confiança: Mestre, que eu veja. Esta cura do homem afectado por doença grave foi assim realizada, não apenas pela simples e generosa concessão de Jesus, mas também através da decidida actuação do interessado, ou seja, do concurso da sua vontade pessoal. Jesus quis deste modo evidenciar a importância da vontade para que cada ser humano possa superar as suas limitações, quaisquer que sejam, em todas as circunstâncias.
Num país como o nosso, em que é largamente dominante a cultura da dependência passiva do Estado, pelo que, segundo muitos, que preferem abdicar da sua vontade e da sua capacidade de iniciativa, tudo deve ser resolvido por iniciativa pública, esta mensagem chama-nos muito fortemente à realidade da nossa responsabilidade como seres dotados de liberdade e de vontade. Um povo com fraca vontade é um povo condenado a fraco desenvolvimento.