O Dia Mundial da Erradicação da Pobreza, que ocorre hoje, chama, como é natural, a nossa atenção para este problema endémico da nossa sociedade, de tal modo radicado que por vezes pode parecer inultrapassável. Aliás, talvez haja aqui e além, em muitas pessoas, uma certa passividade mais ou menos fatalista, porventura decorrente de uma má interpretação da frase evangélica «os pobres sempre os tereis convosco». Na realidade, o seu sentido é diferente: mesmo erradicando a pobreza num determinado momento, as suas causas (o desemprego, a doença, os acidentes, o número de membros do agregado familiar, a perda de rendimentos por outros motivos ou a simples má gestão dos recursos disponíveis nas famílias), ocorrerão sempre no futuro por força das limitações naturais das pessoas (a fragilidade humana), das oscilações da economia, das deficiências da acção dos governos, bem como dos valores prevalecentes em cada momento na sociedade. No entanto, o imperativo de combater a pobreza, com tenacidade, persistência e generosidade, inerente à defesa da dignidade humana, potenciada pelo preceito cristão do amor ao próximo, constitui, não só, como já era no passado, uma forte exigência moral e social, mas também uma imperiosa necessidade jurídica, cívica, política e organizacional.A institucionalização, cada vez mais necessária hoje em dia, de uma vasta e articulada rede de serviços de apoio social, públicos e privados (muitos destes baseados em formas organizadas de voluntariado) pode de certo modo questionar a razão de ser da subsistência de modalidades tradicionais de acção sócio-caritativa individual, de que a esmola, directamente ligada ao fenómeno da mendicidade, é a expressão por excelência. Habituámo-nos demais e ver mendigos e sem abrigo nas nosssas cidades, nas ruas e nas praças, às portas de igrejas e em muitos outros lugares, de modo que estaremos porventura inclinados a considerar essa situação como algo de normal e talvez inevitável. No entanto, a indignidade humana e social que essas aviltantes situações representam deveria mobilizar-nos para empreender de forma organizada acções de emergência social, para apoio a essas pessoas marginalizadas, muitas vezes voluntariamente auto-excluídas, tendo em vista a sua reintegração social.
Penso que nas actuais condições se justificaria a criação de um fundo nacional de emergência social, que funcionaria através de equipas de emergência social, a actuar de forma dinâmica no terreno, cobertas na retaguarda por equipamentos sociais apropriados (refeitórios e lares residenciais de transição) e articuladas com outras instituições vocacionadas para o apoio educativo, de formação profissional e de reintegração social. Nem se receie a eventual dificuldade de conseguir os meios financeiros necessários: um ataque enérgico, mesmo drástico, aos enormes desperdícios de recursos de tantos serviços e organismos do Estado constituiria uma preciosa e moralizante ajuda para o efeito.