sábado, 3 de outubro de 2009

O DRAMA DE CHIPRE

A Euronews emitiu hoje uma interessante reportagem sobre a persistência há décadas de inúmeros problemas humanos decorrentes da divisão da ilha de Chipre. Em Julho de 1974 perante a iminência do que parecia ser a enosis (união de Chipre à Grécia) a Turquia, membro da NATO como a Grécia, invadiu a ilha. Ou seja, a um problema político, ainda que grave, a resolver apenas por meios políticos nas instâncias internacionais, a Turquia respondeu com uma agressão militar, pois foi disso que se tratou. Com a ocupação violenta de um terço da ilha, quando os cipriotas turcos não ultrapassavam 20% da população, e de parte da capital Nicósia (repetindo o caso dramático de Berlim), a intervenção turca provocou milhares de mortos e desaparecidos e, o que foi pior, a deslocação dos seus lares de pelo menos 200.000 cipriotas, a maioria de origem grega. Com a criação de um estado de facto na parte norte da ilha, para onde foram transferidos milhares de colonos turcos vindos da Anatólia e onde a Turquia ainda mantém algumas dezenas de milhares de soldados, o que configura uma ocupação militar, surgiu uma fronteira artificial, que não permite a liberdade normal de circulação das pessoas.

Se estes acontecimentos apresentam inegável gravidade, que dizer da sua persistência ao longo de mais de três décadas sem que a comunidade internacional (ONU e União Europeia) se revele capaz de os resolver? Para tornar a situação ainda mais desconcertante, a República de Chipre (os dois terços habitados por cipriotas gregos), única entidade política reconhecida, foi admitida na UE, mas a Turquia, que negoceia a sua entrada na mesma União, tem recusado a utilização dos portos turcos por parte de Chipre. Entretanto, os políticos responsáveis, não obstante os sorrisos que costumam exibir em público, continuam completamente indiferentes ao problema dos desaparecidos e das suas famílias e ao drama dos desalojados, que perderam em geral os seus bens, que desde então não puderam recuperar. Tudo isto, convém não esquecer, passa-se na Europa, à margem das regras de cooperação internacional, da resolução pacífica dos conflitos e do respeito pelos direitos humanos