terça-feira, 20 de outubro de 2009

SARAMAGO TEM PROBLEMAS COM A BÍBLIA

Foi um espectáculo multifacetado, cheio de vários matizes contraditórios, ao mesmo tempo trágico e patético, compungente e perturbador, risível e alucinante, ver um respeitável senhor, aureolado com o valioso, mas perecível, galardão do Nobel da literatura, vergado ao decurso inexorável dos anos, a evidenciar a precaridade da vida humana, a proclamar a sua verdade, o ateísmo que liberta o homem da sua escravidão (a religião), mas, ao mesmo tempo com a sensação de estar a lutar contra moinhos de vento, como o ícone literário da sua querida Espanha, D. Quixote de La Mancha. Saramago, vigoroso apóstolo da negação de Deus, vive inquieto e amargurado porque, aparentemente, Deus não obedece ao seu desejo de desaparecer, de sair da vida dos homens. Pelo contrário, Deus teima em se manifestar continuamente, nas maravilhas do universo, nos padrões morais que moldaram civilizações milenárias e, sobretudo, porque permanece na consciência, no espírito e nas convicções de muitos milhões de homens em todo o mundo. Para Saramago Deus como que está está a abusar da nossa paciência, pois continua a evidenciar-se e com isso a escravizar os homens. Ao mesmo tempo Saramago sente-se angustiado porque sabendo, ele que é um homem culto, lúcido, superiormente esclarecido, que Deus não existe, por ser uma ficção, uma criação dos homens atormentados e descrentes de si próprios, há ainda muitos milhões de homens que permanecem mergulhados na obscuridade, na ignorância e na superstição.

Saramago, porém, nas suas invectivas tropeçou no laço que ele próprio teceu quando falou da Bíblia nos termos em que falou. Ora, a Bíblia é um livro, ou melhor, não é bem um livro, mas um conglomerado, um conjunto bastante heterogéneo de várias dezenas de livros, muito diferentes entre si, escritos em épocas bastante diversas ao longo de várias centenas de anos, em circunstâncias extremamente divergentes, em estilos muito desiguais e com objectivos igualmente muito diferentes. Por isso, na Bíblia uns livros são míticos, outros narrativas históricas, outros poéticos ou alegóricos, outros romance, a que não faltam pinceladas de sensualidade, outros estritamente religiosos e litúrgicos, outros de orientação moral e social, outros ainda proféticos e escatológicos. Ora, Saramago é um literato, sabe de livros, sabe distinguir os estilos, interpretar os conteúdos, compreender os contextos em que as escritas são produzidas, perscrutar com atenção as intenções dos autores para além das meras aparências literais. De facto, Saramago sabe muito de livros, mas esqueceu-se de algo absolutamente fundamental, ou seja, que muitos dos livros bíblicos não podem nem devem ser lidos à letra e fora do contexto histórico, cultural e civilizacional em que foram redigidos e sem cuidar dos objectivos mais profundos subjacentes à mera redacção, por vezes problemática, dos textos, ou seja, à intenção pedagógica dos autores. Por isso Saramago se enredou numa inextricável teia de equívocos e contradições, de que nem o precioso galardão que ostenta o conseguiu livrar.