sábado, 24 de outubro de 2009

O CARÁCTER É IMPORTANTE NA POLÍTICA?


«Pragmatismo» e «pragmático» são duas expressões usadas com tanta frequência em política, a propósito de tudo e mais alguma coisa, que é lícito que nos interroguemos sobre o que está por detrás deste excesso de utilização, ou seja, qual o modelo cultural dominante que caracteriza em regra a acção política. Tais expressões correspondem a uma teoria desenvolvida pelos norte-americanos William James (1842-1910) e John Dewey (1859-1952), segundo os quais a verdade de uma ideia ou de um programa reside na sua utilidade, expressa pelo seu êxito. Por isso, o que é útil e tem êxito é bom, pelo que tende a ser considerado verdadeiro. A experiência empírica que temos da actividade política, bem como, diga-se de passagem, também da actividade económica, parece confirmar a tendência dominante destes valores, o que leva a que outros princípios, mais substantivos e menos utilitaristas, sejam secundarizados ou mesmo de todo em todo postergados.

Em muitos aspectos a política tornou-se quase mero espectáculo de comunicação, uma simples representação ou encenação, em que o melhor actor é o que «entra» mais no público, com a particularidade de o agente político tender a dizer aquilo que o público gosta de ouvir e que pode não ter nada a ver com a realidade dos factos, a verdade dos problemas e a autenticidade dos programas a pôr em prática. Porém, por baixo do verniz e do brilho da representação, que encontramos nós? Vemos ambiguidade e oscilação do discurso ao sabor das conveniências, a distorção dos factos e dos indicadores por razões de ordem prática, a redução do que é complexo e preocupante a referências simplificadas e de grande leveza, a fuga ao reconhecimento da gravidade de algumas situações, bem representada nas conhecidas expressões «desdramatizar» e «desvalorizar», que quase diariamente ouvimos na comunicação social.

No meio disto tudo, que constitui uma vasta massa indefinida, cinzenta, flexível, vaporosa, fluida, gelatinosa e, além disso, calculista e oportunista, que lugar pode ser atribuído ao carácter na política? É razoável e aceitável reclamar pela necessidade de mais coerência, firmeza e constância nas ideias, nas palavras, nos programas e nos actos? Tem sentido e cabimento exigir, em todas as situações e sem ambiguidades ou adaptações de circunstância, honestidade intelectual a toda a prova e sentido ético rigoroso dos deveres a cumprir com espírito de serviço e dos direitos dos outros a respeitar?