Como sabemos, a campanha eleitoral para as eleições legislativas de 27 de Setembro foi infelizmente conduzida, ao invés do que seria desejável e era necessário, face à difícil situação económica e social do país, com base sobretudo em agressividade verbal simplificada, desprovida de efectivo conteúdo, enquadrada por apelos emocionais e decorada com sofisticados meios mediáticos de encenação. Deste modo, os programas eleitorais (propostas de governo) dos partidos políticos, nalguns casos elaborados tão extensivamente e tão apregoados não foram objecto de adequada análise, ponderação e discussão. Por isso, muitos dos grandes problemas com que se debatem os portugueses (baixo crescimento da economia, elevado desemprego, reduzida produtividade, enorme dívida pública, considerável défice externo e pesado défice orçamental) foram abordados quase sempre de forma desgarrada ou marginal, pouco consistente ou pura e simplesmente omitidos.Há, porém, outra razão que justifica o facto de os portugueses, em geral, não se encontrarem suficientemente sensibilizados e por isso receptivos à percepção das reais dificuldades com que o país se debate. Exceptua-se, como é evidente, o desemprego, que é dramaticamente visível quase em cada esquina e por isso bem sentido por todas as famílias que são afectadas pela quebra sensível ou mesmo ausência de rendimentos. Nas demais situações relevantes para a economia o Governo de José Sócrates adoptou sempre, de forma sistemática, uma atitude de optimismo voluntarista face à realidade dos dados da economia. Nesse sentido, tendeu sempre a minimizar, desvalorizar ou adoçar o significado real dos indicadores menos positivos apurados internamente (por exemplo, pelo Instituto Nacional de Estatística), bem como das previsões periodicamente apresentadas por organismos internacionais, como a União Europeia, a OCDE e o Fundo Monetário Internacional. Ao mesmo tempo, criticou com dureza e algum desprezo os partidos da oposição que chamavam a atenção para o significado dessas informações, acusando-os de pessimismo e derrotismo.
Para agravar ainda mais a dificuldade de os cidadãos em geral se aperceberem da dimensão real dos problemas da economia tem concorrido o facto de que, pela própria natureza dessas situações e pelo estilo de vida de muitos portugueses, a gravidade desses problemas tende a ser subestimada. De facto, como pode constituir alarme o nível excessivo da dívida pública se muitas famílias e empresas se encontram igualmente endividadas? Como pode impressionar as pessoas a amplitude do défice externo, se as práticas consumistas generalizadas vão no sentido de não limitar a compra de produtos importados? Como pode ser factor de preocupação a grandeza do défice orçamental, se as pessoas e os grupos sociais em geral só reclamam mais despesa do Estado, o qual, aliás, se considera dever ser interventor e providencial? Como pode ser fonte de efectiva inquietação o baixo crescimento do produto interno bruto e o modesto índice de produtividade se as pessoas pensam mais no esforço que o Estado deve fazer para a recuperação da economia e menos no contributo pessoal que cada um deve dar, como agente activo do processo produtivo, através de maior empenhamento no trabalho produtivo e de maior eficácia no funcionamento das empresas?