Nem sempre parece evidente para muita gente que a sinceridade é um pressuposto fundamental para que as relações entre os homens se possam basear em critérios sãos, que constituem a base da confiança mútua e da cooperação a todos os níveis. Os casos do comércio e da actividade económica em geral são paradigmáticos. O mesmo acontece na actividade política. De facto, a democracia enquanto governo do povo, exercido através dos seus representantes, eleitos periodicamente, tem como base estrutural a confiança entre os cidadãos eleitores e os políticos designados. É por isso que todas as crises políticas, qualquer que seja a sua dimensão e duração, representam, de uma forma ou de outra, uma crise de confiança. A crise verifica-se quando se dá o enfraquecimento ou mesmo a ruptura do delicado elo, feito de muitos e intrincados fios, que une os governantes e os governados. Ensina-nos a experiência do funcionamento das democracias que a confiança política pode ser facilmente minada ou erodida e que esse fenómeno tem a ver com o nível de verdade e de autenticidade que os agentes políticos põem no exercício das suas funções. O homem comum, ou seja, o cidadão em geral, medianamente informado e atento, tem uma percepção prática muito nítida do que há de verdade, de disfarce ou de embuste no discurso político e na acção política. Os sintomas desta «doença política», pois é disso que se trata, são muitos e bem conhecidos. Basta por agora referir alguns.
Umas vezes são as catadupas de promessas, que se suspeita à partida não serem facilmente exequíveis, ou, em forma de propaganda, os anúncios sucessivos e repetidos de coisas que se espera venham a ser feitas. Outras vezes são as declarações altissonantes, bem encenadas, quando parece evidente a desproporção entre o ruído da proclamação e o conteúdo real do que vai ser feito. Noutras situações, numa manifestação de maniqueísmo político, ouvimos críticas violentas aos outros grupos políticos, quando toda a gente vê que há coisas interessantes, dignas de ponderação, nas suas propostas, e que o diálogo político deve começar por aí. Noutros casos ainda sentimos uma verdadeira incomodidade perante a arrogância dos auto-elogios à acção governativa, em flagrante contraste com a evidência de erros, omissões e incoerências, a percepção de má ponderação na concepção das medidas de política, o conhecimento do deficiente acompanhamento da sua execução, bem como a comprovação da má qualidade das leis. Por isso, a capacidade de autocrítica, de que já se falou noutra altura, deve ser um atributo fundamental da boa acção política, pois traduz o exercício humanista do poder.