No dia 27 de Setembro a presidente do PSD assumiu, como não podia deixar de fazer, a responsabilidade política pela significativa derrota que o partido sofreu nas eleições legislativas. É evidente que há também uma grande responsabilidade do próprio partido, o qual há bastantes anos exibe perante o país uma enorme fragilidade institucional e política, que naturalmente o torna menos atractivo do que foi no passado para a generalidade dos cidadãos eleitores. Mas do partido falarei noutra altura. Por agora, importa delimitar e caracterizar a responsabilidade atribuível a Manuela Ferreira Leite.O programa eleitoral apresentado, que pareceu equilibrado, sensato, realista e exequível, adequado à difícil situação económica e financeira em que se encontra o país, foi bem enquadrado pela preocupação de pôr em evidência o lado nobre e substantivo da acção política (a substância é mais importante do que a forma), expressa no lema «política de verdade»: não usar de fingimento nem de reserva mental, não esconder ou distorcer os problemas, não prometer o que não é possível cumprir, não adulterar nem manipular os factos e os indicadores económicos e sociais, em suma, não mentir aos cidadãos. No entanto, esta estratégia de qualidade e de veracidade políticas terá sido prejudicada pela excessiva desvalorização da forma, dos instrumentos, isto é, dos processos comunicacionais, sobretudo quando postos em confronto com os de um partido (o PS) que os hipervaloriza de modo poderoso e eficaz. Uma coisa é rejeitar o excesso e abuso na utilização de meios mediáticos, em que a substância desaparece para dar lugar a formas sofisticadas de comunicação, encenação e entretenimento, em que prevalecem as aparências e os discursos são meras representações, desfasadas da realidade. Outra coisa é não utilizar todos os meios técnicos disponíveis para reforçar e valorizar a transmissão da mensagem, incluindo os que têm a ver com o discurso, que é o meio normal de comunicação directa e pessoal dos responsáveis políticos.
A política, pela sua sua própria natureza. exige uma intensa e permanente comunicação com os cidadãos. Quanto melhor for a comunicação, quer a simples conversa individual, quer o discurso em reuniões colectivas, mais fácil e segura será a transmissão das ideias e das propostas e a sua boa recepção pelos destinatários. Comunicar não implica apenas jeito natural, embora este seja aperfeiçoável e deva sê-lo quando insuficiente, como acontece com outras faculdades humanas, mas também a utilização inteligente e apropriada de técnicas e mecanismos hoje disponíveis, que não há nenhuma razão para rejeitar. Diz-se que Demóstenes, o grande orador ateniense da Antiguidade (384-322 a.C.) tinha, quando era jovem, alguma dificuldade em falar, com propensão para a gaguês e que ultrapassou esse problema declamando em voz alta com seixos metidos na boca. Ou seja, treinou-se com as técnicas existentes na época. Hoje vivemos irremediavelmente numa sociedade de massas, envolvidos, mesmo penetrados, por meios de comunicação e por imagens. Há pois que aproveitar esses meios, pois eles permitem valorizar e consolidar o grande e nobre objectivo de preservar a substância das coisas na acção política.