A situação do Partido Social Democrata, já aqui referida, que há muito se encontra dilacerado por grupos e facções que se degladiam ferozmente, alheios aos reais interesses do partido e do país, voltou a agravar-se após o termo do ciclo eleitoral que decorreu entre Junho e Outubro, com a intempestiva entrada em cena dos que querem já a substituição da direcção. Manda o bom senso e o sentido das responsabilidades políticas que a líder Manuela Ferreira Leite se mantenha em funções até ao termo do seu mandato, embora seja provável, até porque objectivamente desejável, que não se apresente a eleições para renovação da liderança. No meio do ruído provocado pela frenética agitação de alguns dos actores políticos habituais, não é fácil discernir de forma serena e prospectiva, tendo em vista identificar quem, ao assumir a nova liderança, possa contribuir de modo efectivo para a reconstrução, unificação e dinamização do partido. De facto, a liderança requer nas actuais condições a conjugação de várias qualidades pessoais e políticas: inteligência, para saber ver para além das aparências; cultura política, que dê dimensão substantiva ao discurso; notoriedade social, que permita um amplo reconhecimento popular; capacidade de comunicação, que facilite a sua movimentação nos complexos e difíceis meios da informação; currículo político indiscutível, dentro e fora do partido, que lhe dê autoridade natural; capacidade política para enfrentar o Primeiro-Ministro José Sócrates.Este conjunto de qualidades existem de modo indiscutível em Marcelo Rebelo de Sousa e não será fácil encontrar alguém no interior do partido que o possa igualar neste momento. Aliás, espera o novo líder um trabalho que não é exagerado considerar ciclópico. Por um lado, tem de exercer internamente uma forte pedagogia política, dinâmica e de qualidade, mediante um discurso político substantivo, que saia da vulgaridade dos lugares comuns, bem como da capacidade de esbater diferenças e fazer convergir interesses políticos comuns. Em segundo lugar, tem de garantir a projecção política para o exterior, consolidando a sua respeitabilidade. De resto, convém recordar, se Marcelo Rebelo de Sousa não tivesse abandonado a liderança do partido em 1999, em circunstâncias que nunca ficaram bem esclarecidas, teria certamente sido Primeiro-Ministro em 2002 em lugar de Durão Barroso. Então, é muito provável que nada do que aconteceu tivesse ocorrido, em grande desfavor para o PSD. Por tudo isto, ao ter a oportunidade de levar até ao fim uma missão política que então ficou inacabada, Marcelo tem o dever de avançar para a liderança do partido quando forem marcadas as eleições.