quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O REFERENDO NA IRLANDA



O referendo realizado há poucos dias na Irlanda para a ratificação do Tratado da União Europeia revisto, conhecido como Tratado de Lisboa, veio tranquilizar vastos sectores nacionais e europeus, que chegaram a recear a repetição do não de 2008, embora a sequência das várias sondagens realizadas tivesse evidenciado com bastante clareza que se tinha produzido de facto uma mudança consistente na opinião da maioria dos irlandeses. Penso que é possível tirar do referendo duas interessantes conclusões: por um lado, é sempre importante, porventura fundamental, o modo como é preparada e executada a campanha para o sufrágio; por outro lado, o resultado eleitoral pode, em grau maior ou menor, ser influenciado por factores externos nem sempre previsíveis nem controláveis.

No referendo de 2008 o vasto leque de partidários do sim (a maioria dos partidos políticos, das organizações económicas e sociais e de outras instituições) tinha praticamente como certa a aprovação do Tratado, pelo que levou a cabo uma campanha frouxa e displicente, pouco pedagógica e fracamente apelativa. Pelo contrário, os partidários do não, através de uma campanha agressivamente afirmativa, souberam, com algum enquadramento emocional, explorar bem o medo difuso dos eleitores e o seu descontentamento com aspectos concretos do funcionamento da União Europeia: o seu distanciamento em relação aos cidadãos; o ar tecnocrático, à mistura com um certo tom aristocrático, de alguns responsáveis europeus; o excesso de retórica nos discursos, com falhas de comunicação; a sensação de haver burocracia a mais no funcionamento da máquina administrativa; uma certa incompreensão perante o que parece ser um excesso de regulamentação normativa.

No referendo de 2009 os partidários do sim, tendo apreendido bem com os erros cometidos, descartaram alguma arrogância que tinha sido visível na campanha anterior, usaram de sinceridade na abordagem dos temas, souberam pôr em relevo a necessidade imperiosa de solidariedade entre as nações europeias, em especial no actual momento, dada a forte crise financeira entretanto desencadeada e que atingiu duramente a economia da Irlanda. Pelo contrário, os partidários do não tiveram alguma dificuldade em explicar as vantagens de um certo isolamento internacional que envolveria o país caso recusasse o Tratado, bem como em repetir os argumentos respeitantes aos aspectos negativos do funcionamento da União Europeia, agora claramente desvalorizados face à necessidade de forte entreajuda colectiva no actual contexto internacional.