segunda-feira, 12 de outubro de 2009

TRÊS ELEIÇÕES, MAS UMA SÓ CAMPANHA?



Ao terminar o ciclo de três eleições sucessivas, somos levados a ter a sensação de que o povo português ao votar actuou de forma sensata e esclarecida, mas que os partidos políticos, pelo modo como desenvolveram as suas campanhas eleitorais, nem tanto. Na sua intuição colectiva, que é uma forma prática de conhecimento e discernimento da realidade, muitas vezes subestimada, os eleitores perceberam perfeitamente o significado e os efeitos próprios das várias eleições e por isso votaram de forma diferenciada em cada uma delas. Entretanto, alguns comentadores da comunicação social foram a certa altura de opinião de que na última campanha (para as autarquias locais) parecia notar-se a existência de algum cansaço e saturação por parte dos eleitores, talvez fruto, pensaram eles, da ocorrência de três actos eleitorais em quatro meses. Estou em crer, no entanto, que não foi propriamente cansaço, mas porventura desencanto, perplexidade e incompreensão que os cidadãos terão sentido perante o modo, muito igual, muito previsível, muito repetido, como as campanhas eleitorais se desenrolaram. O mesmo se pode dizer da superficialidade dos relatos das televisões sobre as campanhas, a que infelizmente já estamos habituados.

De facto, as três campanhas eleitorais dos diferentes partidos (apesar de tudo, isso ocorreu mais nuns do que noutros) foram bastante semelhantes, demasiado parecidas, sobretudo porque as campanhas para as eleições europeias e autárquicas (principalmente as primeiras) pareceram muito decalcadas no modelo próprio da campanha para as eleições legislativas, sem grandes inovações ou adaptações. Assim, por exemplo, foram referenciadas (elogiadas ou criticadas, conforme os campos políticos em presença), de modo excessivo ou desproporcionado, as políticas governamentais em geral, que afinal constituíam apenas o objecto próprio do sufrágio para a Assembleia da República. Também não se notaram muitas diferenças nos métodos utilizados de intervenção mediática. Por vezes, terá havido um excesso de intervenção dos líderes e de outras figuras de proa dos partidos, que de algum modo ofuscaram e desvalorizaram a acção dos candidatos a deputados, de que, aliás, em regra, só apareceram os cabeças de lista. No meio de tudo isto valeu a natureza bastante personalizada e competitiva das campanhas para as câmaras municipais, numa antevisão da qualidade e autenticidade que poderia ter a eleição de deputados por círculos uninominais.