
José Sócrates deu início às consultas com os partidos políticos tendentes à formação do novo Governo, que se presume vir a ser formalmente minoritário. Das várias conversações realizadas poderão resultar consequências importantes sobre os apoios com que o Governo eventualmente contará, no método da «navegação à vista», que poderá vir a prevalecer. No entanto, é já visível no horizonte político a táctica que o PS se propõe adoptar. A notícia dada ontem no jornal «i» parece ilustrar bem o rumo que as coisas vão seguir: Hoje José Sócrates «estende a mão» aos líderes dos partidos da oposição. Se ninguém a quiser dar, a culpa não é do PS. Vale a pena determo-nos um pouco sobre esta mensagem e o que nela está implícito. Se não for possível assegurar a estabilidade política e a governabilidade do país, a culpa é dos partidos da oposição, o que constitui uma forma de o partido do Governo à partida se desculpabilizar e se vitimizar. Por isso, subentende-se, os partidos da oposição devem ser «suaves» e «cooperantes», ou seja, passar a ser uma oposição mais ou menos anestesiada.
Sabemos que em política nada é gratuito. Estender a mão não é, em si, relevante, pois tudo depende do facto de a mão estar cheia, meio cheia ou simplesmente vazia de intenções sérias de cooperação política e de propostas susceptíveis de serem aceites pela oposição, tendo em vista consensualizar políticas concretas de governação. Ora, o PS teve apenas 36% dos votos, pelo que o seu programa eleitoral foi aprovado apenas parcialmente. Deste modo, não pode pretender governar sozinho com a totalidade do programa que foi proposto ao eleitorado. Nesse sentido, é o PS que precisa dos partidos da oposição e não estes que precisam do PS. Assim, José Sócrates tem necessidade de realizar acordos estáveis, de preferência não pontuais, para garantir um mínimo aceitável de governabilidade. Ora, tais acordos só serão possíveis se o PS retirar do seu programa as matérias mais controversas e mais susceptíveis de impedirem a concertação. A salvaguarda do interesse nacional, expresso pela estabilidade política e pela governabilidade, implica, não que os partidos da oposição se «submetam» ao Governo do PS, mas que este, inteligentemente, com verdadeiro espírito democrático, se «adapte» aos partidos da oposição. Aliás, é isto mesmo que acontece quando se forma uma coligação formal entre dois ou mais partidos para formarem governo.