
Numa concorrida praça lisboeta fui hoje surpreendido por ver um grupo de bombeiros voluntários pertencentes a uma corporação da área da Grande Lisboa a vender pequenos títulos (as vulgares rifas) de um sorteio a realizar proximamente. É manifesto que se trata de uma forma disfarçada de realizar um peditório, o qual, de resto, por si próprio, é também um modo encapotado, socialmente mais aceitável, de captar esmolas. A surpresa resultou do facto de aparentemente não impressionar a circunstância, que não é rara, de uma instituição desta natureza recorrer à caridade pública, que, diga-se o que se disser, traduz, nos tempos que correm, com tantos direitos porclamados e tantos programas anunciados, uma situação de menor dignidade social e cívica. Mas a ocorrência implicou também um choque, que evidencia a existência de situações de egoísmo social. De facto, temos consciência de que os recursos são escassos, mas também sabemos que nem sempre são bem geridos, conhecemos até que ponto há desperdícios e gastos inúteis (alguns escandalosos), tanto nas admninistrações central e local do Estado, que têm obrigação da parcimónia, como nos particulares e nas empresas, que não podem considerar-se desvinculados de certos deveres sociais. Neste caso, também pode ter acontecido que a referida corporação de bombeiros não tivesse estrita necessidade do peditório, mas tenha recorrido a tal processo para obter uns fundos complementares, que dão sempre jeito. Então estaríamos perante um problema cultural e cívico, que pode decorrer de algum atraso civilizacional. Não se pode actuar no nosso tempo como se fazia há cem anos atrás.