sábado, 3 de outubro de 2009

OS JOGOS OLÍMPICOS NO RIO DE JANEIRO



A notícia das televisões de que os jogos olímpicos de 2016 se realizariam no Rio de Janeiro veio acompanhada de duas imagens perturbadoras, que convidam a uma certa reflexão, pelo contraste entre, por um lado, uma multidão delirante a celebrar a escolha da cidade para o evento e a promoção civilizacional que isso representa e, por outro lado, uma das muitas favelas da cidade, em que eram visíveis agentes de segurança fortemente armados. No entanto, a notícia salientava apenas os problemas de segurança na organização dos jogos e não a indignidade humana e a injustiça social que representa a persistência desses bairros miseráveis às portas da grande metrópole.

Os jogos olímpicos modernos transformaram-se num acontecimento enorme, gigantesco, já que se traduzem na realização quase simultânea de campeonatos mundiais de praticamente todas as modalidades desportivas. Esta circunstância implica uma organização gigantesca dotada de um orçamento gigantesco, que levanta problemas mesmo a países ricos. De facto, é necessário construir infra-estruturas ou adaptar as antigas à mesma escala gigantesca, para servirem uma concentração de pessoas que não terá depois facilmente repetição. Terminados os jogos, muitas dessas infra-estruturas ficam subutilizadas, o que se traduz num desperdício permanente de recursos, que se sabe serem escassos. Por outro lado, a data de realização dos jogos constitui um limite temporal rígido, pelo que eventuais modificações que seja necessário introduzir nos planos ou quaisquer atrasos na concretização das obras implicam gastos adicionais de elevado montante. Ou seja, também aqui estaremos perante um inevitável desperdício de recursos, que podem fazer falta noutras áreas, porventura prioritárias. O bom senso, o sentido das proporções, a ideia de que os recursos devem ser mais equitativamente distribuídos dadas as carências económicas e sociais graves que permanecem em muitas partes do mundo aconselharia que fosse repensado o gigantismo desmesurado dos jogos olímpicos, de modo que pudesse haver haver um pouco menos de circo para alguns e um pouco mais de pão para muitos.