domingo, 18 de outubro de 2009

ANTES SERVIR DO QUE SER SERVIDO

Neste domingo, a celebração eucarística dos cristãos católicos teve como principal ponto de referência a afirmação de Jesus Cristo constante do Evangelho segundo Marcos: O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir (cap. 10, vers. 45). Este comando ético e espiritual constitui um paradigma fundamental para a compreensão da mensagem cristã e da própria vida da Igreja. Servir traduz a disponibilidade permanente para com os outros, a bondade multidireccionada e incondicionada, a compreensão para com os erros, a receptividade perante as angústias dos homens e a tolerância para com os desvios. Ser servido tem que ver com o exercício do poder, seja espiritual, jurídico ou material. Como em qualquer organização, também na Igreja o exercício do poder (recorde-se que foi uma das três tentações a que Cristo foi submetido) esteve sujeito a desvios e perversões ao longo da história, tanto mais que durante 1100 anos (de 752 a 1870) a existência dos chamados Estados Pontifícios (Estados Papais ou Património de S. Pedro) comprometeu a Igreja, como qualquer outro estado secular, com actuações especificamente políticas, administrativas e mesmo até militares. É nesta perspectiva que podemos tentar compreender de certo modo o mistério da história da Igreja e vislumbrar uma eventual hipótese de explicação para alguns dos grandes períodos dramáticos que ocorreram na história do cristianismo.

A partir do século IV, o excesso do poder intelectual e o correspondente orgulho nas numerosas discussões e nos repetidos conflitos teológicos, bem como a cedência à tentação de colagem ao poder imperial (primeiro de Roma e depois de Constantinopla) tiveram o trágico desfecho das invasões muçulmanas árabes (a partir do século VII), que varreram praticamente o cristianismo de todo o Médio Oriente e do Norte de África. A partir da Alta Idade Media, a rigidez da concepção do poder espiritual e político do papado teve como contrapartida a gravíssima fractura que representou a Reforma protestante (século XVI), que tinha, aliás, sido antecedida da separação da Igreja Oriental (Ortodoxa) no século XI. Finalmente, o longo período de duração do sistema ambíguo que ficou conhecido como «Aliança entre o Trono e o Altar», com particular incidência nos séculos XVII e XVIII, teve o dramático epílogo dos acontecimentos dos séculos XIX e XX, que tanto sofrimento causaram à Igreja e aos cristãos. Podemos assim dizer que sempre que o factor humano ser servido prevaleceu sobre o factor divino servir, a Igreja pagou uma pesada factura. Esta compreensão da história pode servir de guião para perspectivar o futuro.