Aparentemente, a classe política está a ir para férias, a banhos uns, outros nem tanto, evidenciando, em geral, uma despreocupação rotineira (não há razão para fugir ao lazer, como sempre se tem feito) ou uma suave descontracção (talvez as coisas não estejam tão mal como alguns dizem), que não parecem enquadráveis na dura, por vezes cruel, realidade, tal como é percepcionada e sentida pela generalidade dos portugueses. Talvez por isso alguns analistas mais acutilantes falem em «sensação de fim de ciclo», sem que, no entanto, se perceba bem o que isso quer dizer, já que o Governo, que não esconde estar extremamente agarrado ao poder pelo poder, dá fortes indícios de que se prepara para manter inalterado o status quo político (executivo sem maioria e, por isso, sem efectiva capacidade governativa) até ao fim da legislatura (mais três anos), como se daí não viesse mal nenhum ao país. Só que a factura a pagar por esta espécie de «dolce far niente», completamente irresponsável, será pesadíssima.Seria possível esperar que este período de descanso e de ócio não fosse apenas uma oportunidade de retemperar forças para voltar à rotina anterior na forma de dirigir o país, em suma, para tornar a fazer as coisas da mesma maneira. Seria possível esperar que os responsáveis políticos, libertos das anteriores ansiedades, tensões e conflitos, ultrapassando os seus mimetismos, regressassem com um espírito renovado, mais lúcido, aberto e esclarecido, mais realista e apaziguador, mais propenso a entendimentos, em nome do indeclinável interesse colectivo.
Seria de facto possível que ocorressem essas magníficas mudanças, se verificassem tais maravilhosas «conversões», susceptíveis de permitirem que as entortadas e sinuosas veredas da política nacional fossem aplanadas e endireitadas. Porém, realisticamente, é muitíssimo pouco provável, para não dizer impossível, que se dêem essas transformações. De facto, a «sabedoria eleitoral» do povo português ofereceu-nos de bandeja um país politicamente bloqueado, com a agravante de a maior parte dos líderes políticos em exercício serem também mestres na arte do bloqueio. Por isso, não parece haver cinismo nem fatalismo na afirmação de que o bom povo português quis que as coisas se passassem assim, pelo que não há verdadeiramente razões de queixa.
O cenário resultante das últimas eleições legislativas não foi de facto brilhante e evidenciou uma situação política de completo constrangimento, um verdadeiro cerco político, que se tem agravado nos últimos meses à vista de todos nós, que tentamos perceber aquilo que escapa a toda a lógica e à mais elementar razoabilidade.
Um quinto dos cidadãos eleitores votou em partidos da extrema esquerda (uma grave anomalia em termos europeus), enformados pelo quadro de valores do marxismo-leninismo, que, por isso e pela sua prática política, se auto-excluem do chamado «arco da governabilidade». Tendo sido de protesto, uma votação tão expressiva revela-se, no entanto, completamente inútil em termos de governação. Todos esses votos foram positivamente deitados para o caixote do lixo. O país merece e, sobretudo, pode aguentar semelhante desperdício?
O Partido Socialista, embora tenha saído fortemente enfraquecido do escrutínio, não percebeu ou finge não perceber, a mudança eleitoral verificada e manteve a mesma prática política, com todos os vícios, feitos de isolamento, arrogância e autoritarismo, adquiridos na anterior legislatura com maioria absoluta. Por isso isso, oscilando como um catavento entre várias atitudes contraditórias (umas vezes genuinamente socialista, outras vezes social-democrata, outras ocasiões ainda centrista ou mesmo, escândalo dos escândalos, claramente direitista), tem evidenciado total ausência de capacidade e de vontade para negociar politicamente a constituição de um governo de coligação (como, em regra, fazem os europeus), susceptível de assegurar um executivo com apoio maioritário. Esta situação mostra mostra como, no fundo, ainda não somos verdadeiramente europeus.
Por seu turno, nos partidos à direita dos socialistas o panorama não é muito animador. O PSD, que continua a exibir um nome que é, em si mesmo, uma ambiguidade e uma contradição com o seu posicionamento no Parlamento Europeu, tem andado muito entretido com a afirmação de uma nova liderança, depois de ter experimentado vários presidentes, como quem prova roupa numa loja de pronto a vestir, segundo a técnica do «usa e deita fora». Por seu turno, o CDS/PP, que não se sabe bem quando é popular nem quando é centrista, sem falar na túnica da democracia cristã que às vezes também enverga, tem andado muito ocupado tacticamente com a afirmação da sua autonomia e diferença em relação àquilo que Paulo Portas gosta de chamar o «centrão» e que também não se sabe bem o que é. Estes partidos, que, por integrarem o Partido Popular Europeu, se sentam do mesmo lado no Parlamento da União Europeia, mostram-se incapazes de combinar uma oposição coordenada e articulada, susceptível de dar esperança aos portugueses na existência de uma real alternativa de governação.
Para estes jogos políticos de expressão florentina, em que andam enredados os «políticos bloqueados», a correr desesperadamente em circuitos fechados, de onde não conseguem sair, que importância tem a gravíssima crise económica e financeira em que o país se encontra profundamente mergulhado? Quem ouve com sinceridade e coração humilde e aberto os clamores das empresas que fecham, os brados angustiados dos desempregados, dos pobres e dos excluídos, os protestos dos que justamente se indignam com o aumento das desigualdades sociais?
É neste contexto que muitos de nós sentem pavor só se pensar em que tudo vai continuar mais ou menos na mesma. Vamos ouvir os mesmos discursos políticos, vamos assistir aos mesmos debates políticos, vamos ver os mesmos números de exibicionismo político, de encenação mediática e de autocomprazimento, que parecem tirados a papel químico dos anteriores, vamos ouvir as mesmas ridículas afirmações a propósito da subida ou da descida de umas míseras décimas dos indicadores da nossa desgraça, vamos continuar a assistir ao espantoso e pungente folhetim da descredibilização da justiça (um pilar fundamental da democracia), enfim, vamos porventura confirmar que de todo em todo não sabemos quando haverá luz ao fundo do túnel.
Perante tudo isto, que para mim é muito, é excessivo, é mesmo avassalador, sinto-me também de certo modo bloqueado no âmbito deste blogue. Continuar com os meus comentários, como até aqui, implicaria dois riscos que talvez não seja razoável correr: por um lado, repetir mais ou menos o que já foi dito, já que tudo vai continuar fundamentalmente na mesma, como parece inevitável; por outro lado, carregar nas tintas, radicalizar, ou seja, entrar na via de um indisfarçado pessimismo, por amor do que possa parecer ser a verdade. No primeiro caso, as mensagens perderiam a sua originalidade, a sua frescura e a sua utilidade. Seriam sempre uma espécie de «algo já visto». No segundo caso, a vertente pedagógica e o cultivo da esperança sairiam prejudicados. Por isso, prefiro manter o pessimismo apenas no interior de mim próprio, já que posso mais facilmente enquadrá-lo e contê-lo com outros valores, sólidos e indestrutíveis, em que a esperança nunca se perde e a confiança está sempre presente.
Deste modo, escolho a opção de evitar que o bloqueio também entre no meu blogue e no meu espírito, que a minha independência pessoal fique amarrada a uma conjuntura que infelizmente se entrevê duradoura e que tem o seu quê de malsão e destrutivo. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. A intervenção cívica que em Setembro de 2009 me parecia possível e desejável, em certo sentido mesmo imperativa, não dispõe agora, de acordo com a minha perspectiva actual, passado praticamente um ano, de espaço adequado e de condições apropriadas para se manifestar e desenvolver.
O ambiente geral abafa, entorpece e desvitaliza. A respiração intelectual torna-se penosa e como que congela a criatividade. A vontade vê-se perigosamente envolvida por um amplexo langoroso da mediocridade dominante. Por isso, este blogue entra de férias, provavelmente por tempo indeterminado.
