Uma das exigências fundamentais da boa gestão pública, quer ao nível central, quer, sobretudo, no âmbito local e autárquico, é o bom senso na definição das prioridades de actuação. A razão está em que os recursos financeiros são por natureza limitados e insuficientes, ainda mais nos tempos actuais, em que o país vive mergulhado numa crise estrutural de grande amplitude, agravada pela crise financeira internacional desencadeada em 2008. Por isso, não se pode fazer tudo o que parece bem ou é mesmo necessário, mas apenas aquilo que, sendo indispensável, é mais importante para a comunidade ou beneficia um maior número de pessoas.Há no sector público o enorme risco de surgirem ideias interessantes ou mesmo brilhantes, sem dúvida atraentes, mas que não se enquadram naquela regra de bom senso ou não passam no escrutínio das prioridades sociais. Na gestão municipal ninguém de certo contesta que constituem prioridades, por exemplo, a preservação do património imobiliário, a boa conservação das ruas e dos passeios pedonais, a limpeza e a higiene públicas, a segurança das pessoas e dos bens, bem como as acessibilidades para as pessoas com limitações, motoras ou de outra natureza.
Parece, por isso, difícil incluir nas prioridades correspondentes às necessidades colectivas mais urgentes a construção em plena cidade de ciclovias para a circulação de ciclistas. De resto, a cidade de Lisboa, pelas suas características topográficas, não é funcionalmente atraente para a circulação de bicicletas, nem vemos que, por isso mesmo, a prática do ciclismo atraia um número significativo de residentes.
No entanto, a Câmara Municipal de Lisboa tem vindo a insistir no investimento em ciclovias que, em muitos casos, além de consumirem recursos que fazem falta para a satisfação de ourtras necessidades colectivas socialmente mais relevantes, implicam alterações na configuração das vias e nos passeiosedonais, com efeitos nefastos para a circulação de peões e de veículos automóveis, como já tem sido relatado na comunicação social. Construir ciclovias pode ser uma ideia interessante, que significa alguma coisa para um escasso número de utilizadores, mas que não corresponde, de forma alguma, a uma verdadeira prioridade face às necessidades e aspirações da grande maioria dos habitantes da cidade em aspectos fundamentais, alguns mesmo elementares, da sua vida quotidiana.