Os erros históricos originários. O conflito entre israelitas e palestinianos permanece sem solução à vista, coberto por um espesso manto de hipocrisia, cinismo e oportunismo por parte de praticamente todos os países e entidades envolvidos. A este respeito, nunca pareceu tão verdadeira a frase lapidar, também ela cínica, mas acutilante como uma espada afiada, segundo a qual os diplomatas são as pessoas especialmente encarregadas de resolver problemas que não existiriam se não houvesse diplomatas. Ou seja, muitas vezes a diplomacia é fonte de problemas e não da resolução dos mesmos. A recente elaboração do relatório das Nações Unidas sobre as operações militares realizadas por Israel em Gaza em 2008, que vai ser discutido na Comissão dos Direitos Humanos daquela Organização, ameaça trazer mais achas para uma fogueira que parece alimentada por um fogo inextinguível. Para tentar perceber a natureza última do conflito, parece possível penetrar um pouco no denso nevoeiro que o rodeia e lhe tira a indispensável visibilidade através da verificação da existência de erros sucessivos de avaliação histórica por parte dos israelitas e dos árabes palestinianos, que funcionam como autênticos travões do processo de paz.O primeiro erro histórico perde-se já na noite dos tempos e tem que ver com a pretensa legitimidade histórica de ambos os povos à posse do território da Palestina e, o que é pior, que essa posse tem em ambos os casos a chancela divina. De facto, cerca do século XII antes da nossa era os israelitas conquistaram militarmente o território, para eles a «terra prometida» por Deus (Javé), depois da fuga do Egipto e da longa e penosa peregrinação pelo deserto, como relata a Bíblia (Livro de Josué). Por seu turno, os árabes, também em nome de Deus (Alá) e da guerra santa, conquistaram a Palestina (então com escassa população judaica) em 638 da nossa era, no âmbito da agressiva e bem sucedida expansão muçulmana que teve início no século VII. Verifica-se, assim, que ambos os povos chegaram à posse daquela terra do mesmo modo, de forma violenta, por meio da espada. No entanto, o facto de em ambos os casos ter havido uma espécie de comando divino a cobrir e de certo modo a justificar a conquista, fez desaparecer toda a racionalidade na discussão do problema e insuflou violentas paixões que ainda hoje se mantêm, materializadas simbolicamente no grave conflito pela posse dos lugares santos de ambas as religiões, existentes lado a lado, mesmo paredes meias, na cidade de Jerusalém. Nunca a expressão a «paixão é inimiga da razão» foi tão verdadeira como neste caso. Tudo é pior, no entanto, quando a paixão é enquadrada por motivações religiosas extremadas.