O Cardeal Patriarca de Lisboa considerou necessário emitir uma nota de esclarecimento sobre o seu encontro com o Primeiro-Ministro, realizado em Outubro. A reunião foi mantida em segredo. Por i
sso, quando a comunicação social descobriu o caso deu-se a inevitável especulação sobre se teria havido um acordo entre ambos relacionado com a iniciativa legislativa do Governo sobre o casamento homossexual. O essencial do comunicado foi publicado pelo jornal Público no dia 24 de Dezembro, nos termos seguintes: «O patriarca de Lisboa encontrou-se, de facto, com o senhor primeiro-ministro, a pedido deste, no dia 20 de Outubro. Ficou assente entre ambos que não haveria declarações para o público sobre os assuntos nele abordados. O patriarca de Lisboa foi fiel a este compromisso de discrição. (...) Acerca de nenhum dos ponto abordados (...) houve 'pactos' ou 'compromissos'. (...) Nem o senhor primeiro ministro sugeriu nenhum 'pacto' , nem o patriarca de Lisboa podia assumir qualquer compromisso que significasse, ainda que indirectamente, o condicionamento da liberdade da Igreja de afirmar a sua doutrina». Mesmo com os esclarecimentos prestados, o encontro realizado, agora conhecido, não deixa de suscitar algumas dúvidas e perplexidades.
sso, quando a comunicação social descobriu o caso deu-se a inevitável especulação sobre se teria havido um acordo entre ambos relacionado com a iniciativa legislativa do Governo sobre o casamento homossexual. O essencial do comunicado foi publicado pelo jornal Público no dia 24 de Dezembro, nos termos seguintes: «O patriarca de Lisboa encontrou-se, de facto, com o senhor primeiro-ministro, a pedido deste, no dia 20 de Outubro. Ficou assente entre ambos que não haveria declarações para o público sobre os assuntos nele abordados. O patriarca de Lisboa foi fiel a este compromisso de discrição. (...) Acerca de nenhum dos ponto abordados (...) houve 'pactos' ou 'compromissos'. (...) Nem o senhor primeiro ministro sugeriu nenhum 'pacto' , nem o patriarca de Lisboa podia assumir qualquer compromisso que significasse, ainda que indirectamente, o condicionamento da liberdade da Igreja de afirmar a sua doutrina». Mesmo com os esclarecimentos prestados, o encontro realizado, agora conhecido, não deixa de suscitar algumas dúvidas e perplexidades.1) O encontro foi realizado a pedido do Primeiro-Ministro, o que nos leva naturalmente a perguntar o que haverá na agenda política de José Sócrates que tenha directamente a ver com competências a actividades próprias da Igreja e que não deva ser do conhecimento público, ou seja, que convenha esconder dos cidadãos. 2) Além disso, o Cardeal Patriarca é bispo da diocese de Lisboa, pelo que tam
bém é compreensível a pergunta sobre que assuntos específicos desta diocese interessam ao Primeiro-Ministro. Porém, se os assuntos a tratar respeitavam ao conjunto da Igreja em Portugal, será questionável o facto de o Primeiro-Ministro não ter convidado, pelo menos também, o Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, na circunstância o Arcebispo de Braga D. Jorge Ortiga. 3) Por outro lado, parece razoável admitir que partiu de José Sócrates a iniciativa de propor que o encontro ficasse secreto, por haver nisso conveniência política, até porque a política também funciona muito nos bastidores, às escondidas, com camuflagens, mas de um ponto de vista estritamente cristão parece exigível que a Igreja actue sempre com total transparência e publicidade nas suas relações com o poder político.
bém é compreensível a pergunta sobre que assuntos específicos desta diocese interessam ao Primeiro-Ministro. Porém, se os assuntos a tratar respeitavam ao conjunto da Igreja em Portugal, será questionável o facto de o Primeiro-Ministro não ter convidado, pelo menos também, o Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, na circunstância o Arcebispo de Braga D. Jorge Ortiga. 3) Por outro lado, parece razoável admitir que partiu de José Sócrates a iniciativa de propor que o encontro ficasse secreto, por haver nisso conveniência política, até porque a política também funciona muito nos bastidores, às escondidas, com camuflagens, mas de um ponto de vista estritamente cristão parece exigível que a Igreja actue sempre com total transparência e publicidade nas suas relações com o poder político.Em sociedades mediatizadas como a nossa, tudo acaba por se saber, como agora aconteceu, pelo que um encontro daquela natureza nunca deveria ter sido secreto. De resto, como resulta da experiência, os esclarecimentos tardios nunca conseguem apagar todos os efeitos nefastos (dúvidas, suspeitas, especulação informativa) que resultam da revelação do «segredo». Além disso, ensina-nos a história, desde os remotos tempos do imperador Constantino (século IV), que todos os governos, qualquer que seja a sua natureza e a qualidade dos seus dirigentes, têm uma tendência natural, por força do impulso de domínio próprio do poder político, para desejarem manipular ou influenciar a Igreja.
Em Portugal, a Igreja depende do Governo para muitas das suas actividades não especificamente espirituais, como a regulamentação e aplicação da Concordata, o ensino, a construção de templos e de equipamentos sociais, bem como o apoio à acção social. Esta dependência pode ser facilmente objecto de manipulação do Governo, que, aliás, tem condições para usar para o efeito de meios subtis ou sofisticados, mas eficazes. Por isso é que a Igreja deve permanecer intransigentemente independente do poder político, mesmo que porventura, se for caso disso, à custa da perda de algumas vantagens jurídicas, materiais e financeiras.