quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A PERTURBADORA HISTÓRIA DAS CRUZADAS

Tive recentemente ocasião de ler o volumoso e bem documentado livro do historiador britânico Christopher Tyerman A Guerra de Deus - Uma Nova História das Cruzadas, em que o autor consegue um notável equilíbrio entre os relatos das grandes acções colectivas e a descrição das aventuras e dos dramas individuais. Tudo parece perturbador neste livro, a começar pelo título principal, que tem apoio na frase com que o autor inicia o prefácio: A violência sancionada pela sociedade e apoiada pela religião revelou-se um lugar comum das comunidades civilizadas. De facto, a história das cruzadas é o relato multifacetado da estranha aliança de duas realidades opostas entre si, a espada e a cruz, os poderes políticos (temporais) dotados de força coactiva, donde decorre a violência, e os poderes religiosos (espirituais), que fazem apelo à superioridade do espírito e às relações pacíficas dos homens entre si.

Nesta análise histórica nós compreendemos sem dificuldade a violência que campeava na Europa nos séculos XI a XIV, em que o feudalismo dominante tinha tornado as sociedades muito fragmentadas, por vezes caóticas, e em que a cavalaria, como grande instituição da época, conciliava naturalmente a destreza e a honra com a força bruta. Compreendemos, porque a sociedade medieval era muito diferente nossa. O que é perturbador e inquietante é que a Igreja se tenha envolvido tanto como se envolveu, com a extensão e profundidade com que se comprometeu, em nome de Deus (Deus o quer era o lema das cruzadas), do mesmo Deus que, através de Jesus Cristo, veio insistir na paz e na não violência: «amai os vossos inimigos»; bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra»; «bem-aventurados os pacíficos, porque verão a Deus»; «mete a espada na bainha» (no Monte das Oliveiras). É que o cristianismo é essencialmente o mesmo desde o início e os Evangelhos não foram alterados. Que se passou então, que possa ter dado lugar àquela aliança espúria?

Só pode haver uma explicação: naquela época deu-se a grave contaminação de uma doutrina especificamente religiosa, baseada na fraternidade e na bondade, por critérios puramente humanos de poder e domínio, de força e violência, em que a exclusão e intolerância ocupam um lugar preponderante, como foi evidente na cruel cruzada contra os cátaros e albigenses, no Sul da França. Esta contaminação tem uma origem profunda, como já foi referido noutra altura. Quando a perspectiva exclusivamente humana de «ser servido», que se alimenta de ambição e poder, de honras e de fausto, se sobrepõe ao preceito evangélico «servir», que se baseia na compreensão, na disponibilidade e na ajuda, tudo pode acontecer, até mesmo a subversão dos mais sagrados princípios.