À medida que vamos acompanhando o lento desenvolvimento do processo «Face Oculta» e temos conhecimento de situações similares, ainda que de menor dimensão e gravidade, melhor nos vamos apercebendo como os ovos (pequenos, médios e grandes) da serpente da corrupção estão tão disseminados na nossa sociedade, nos quadros mentais e nos hábitos de muitos cidadãos, mesmo quando, podemos admitir, por força da rotina, as pessoas não têm a percepção nítida do real significado dos seus actos. Esses ovos têm um nome, o favor. A realização de favores pode ser completamente inocente e traduzir apenas um gesto de genuína amizade ou de sincero desejo de ajudar alguém a resolver um problema (obter uma informação, conhecer o estado de um processo, ajudar a preencher um formulário, realizar uma diligência e assim por diante). No fundo, um bom profissional deve estar sempre disponível para fazer esses favores, que exprimem, mediante atitudes de benevolência e dedicação à função, sentido de serviço e preocupação pelo bom acolhimento dos cidadãos.O problema começa a existir quanto um favor é «pago» com outro favor, ou seja, quando há troca de favores, ou quando a prestação do favor, feito sem mácula e sem segundas intenções, é unilateralmente compensada com uma qualquer vantagem material, que começa com «pequenas atenções», mas que depois nunca se sabe como pode acabar. Para muitas pessoas, que têm uma visão materialista da vida ou uma concepção interesseira das relações sociais, tudo tem um preço. Por isso, entendem que o mero facto de serem bem atendidas, mesmo que isso seja simples consequência de o serviço funcionar bem, implica sempre uma qualquer compensação material, uma contrapartida. A sua aceitação, ainda que inicialmente por embaraço, timidez de recusar ou simples ingenuidade, pode desembocar facilmente num hábito, por natureza traiçoeiro, pelo que fica aberta a porta larga que conduz à prática da corrupção, em que as contrapartidas dos favores podem atingir níveis elevados e qualidade muito refinada. É esta cultura do favor, a que também está ligada a tradicional «cunha», tão enraizada nalguns sectores da sociedade, que deveria ser combatida tenazmente, como acção de prevenção e em nome da transparência que deve existir nas relações dos cidadãos e das empresas com o Estado e todas as entidades que o integram.